Garimpando a Netflix: Entre Clássicos Improváveis e Heróis da Terceira Idade
O catálogo da Netflix é um leviatã em constante mutação. A cada semana, o algoritmo te joga um mar de opções, e separar o que realmente vale o seu tempo das produções genéricas virou quase um esporte de resistência. Mas a seleção atual do streaming está escondendo algumas cartas na manga que merecem o seu play absoluto. Estamos falando de um recorte brutalmente interessante que vai de uma dramédia indie que redefiniu a crise dos 20 e poucos anos, passa por clássicos absurdos, até chegar a uma aposta recém-saída do forno sobre velhinhos combatendo o terror cósmico.
O Retrato do Caos Jovem em “Frances Ha”
Para começar a desbravar esse labirinto, a pedida é voltar ao início da década passada com Frances Ha (2013). Antes de Greta Gerwig estourar para o mundo com a explosão rosa de Barbie, ela já se consagrava como uma das vozes mais sagazes da sua geração ao lado de Noah Baumbach — que, convenhamos, entregou aqui um de seus melhores trabalhos, batendo de frente com a genialidade de História de um Casamento. Em um glorioso preto e branco nova-iorquino, acompanhamos uma bailarina de 27 anos perdendo totalmente o chão quando sua melhor amiga se muda para um bairro mais nobre. O que se desenrola na tela é um filme melancólico, de uma empatia ímpar, que captura perfeitamente aquele limbo maldito da juventude onde você se sente constantemente atrasado e incapaz de dar conta da própria vida. É um retrato cru e honesto das desilusões do fim dos anos 20.
A Reinvenção do Épico em “Creed”
Se Frances Ha é sobre apanhar da vida no microcosmo urbano, Creed: Nascido Para Lutar (2015) leva a pancadaria ao pé da letra, mas com uma carga dramática absurda. Reviver a franquia Rocky focando em Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho do lendário Apollo, e treinado pelo próprio Rocky Balboa (Sylvester Stallone) era o tipo de expansão caça-níquel que tinha tudo para dar errado. Só que nas mãos do diretor e roteirista Ryan Coogler, a coisa decola de uma forma assustadora. Na época, Coogler vinha da recepção fantástica do seu Fruitvale Station: A Última Parada, mas o escopo do seu talento ainda era uma incógnita na indústria. Creed foi o seu carimbo de genialidade. Ele consegue a proeza de entregar um épico das arenas de boxe que soa extremamente íntimo. Olhando pelo retrovisor, a ascensão meteórica da carreira de Coogler não foi sorte, era um destino inevitável.
O Ápice do Absurdo em “O Grande Lebowski”
E já que estamos falando de obras que subvertem expectativas, é obrigatório dar um salto para o ápice do cinema “chapado”. O Grande Lebowski (1998) continua intacto como uma das comédias mais genialmente loucas e citadas das últimas três décadas. Os irmãos Joel e Ethan Coen tinham acabado de levar o Oscar pelo gélido e tenso Fargo. O que eles fizeram em seguida? Chutaram o balde, trocaram as planícies geladas do meio-oeste pelo sol escaldante de Los Angeles e nos apresentaram a Jeffrey “The Dude” Lebowski (Jeff Bridges). O Cara. Um folgado profissional, eternamente entorpecido, que cai de paraquedas num complô esquizofrênico de sequestro e resgate envolvendo um milionário ranzinza, um magnata da pornografia e uma gangue de niilistas alemães. Sustentado por atuações monstruosas de Bridges e John Goodman, é aquela rara pérola cômica que só fica mais afiada a cada nova maratona.
A Próxima Fronteira: Os Bastidores de “The Boroughs”
Essa capacidade de hospedar narrativas tão distintas e ainda manter a relevância é o grande trunfo do streaming, que definitivamente não vive só de garimpar o passado. Enquanto a gente redescobre esses clássicos de peso, as engrenagens da Netflix continuam girando com novas ideias que desafiam a lógica convencional de mercado.
Toda essa efervescência criativa pavimentou o caminho para uma das estreias mais intrigantes dos últimos tempos. Depois que os roteiristas Jeffrey Addiss e Will Matthews brilharam e conquistaram o público com O Cristal Encantado: A Era da Resistência, o telefone deles tocou. Do outro lado da linha estavam Matt e Ross Duffer — sim, os criadores do fenômeno Stranger Things —, assumindo o papel de fãs e propondo uma reunião para produzir o próximo projeto da dupla. Foi dessa colisão de mentes criativas que nasceu The Boroughs.
A premissa da nova série é um soco no estômago do clichê de heróis adolescentes: ambientada em uma pitoresca comunidade de aposentados no Novo México, a trama acompanha um grupo improvável de idosos que precisa unir forças para varrer do mapa uma ameaça de outro mundo. Cravando uma faca no equilíbrio exato entre o horror cósmico e o drama genuíno, o mistério sobrenatural já começou a hipnotizar o público global.
Mas o verdadeiro deleite é ver quem está no front de batalha. Ícones absolutos do cinema como Alfred Molina, Geena Davis e Alfre Woodard lideram esse esquadrão geriátrico de detetives amadores, dividindo a tela com pesos-pesados como Clarke Peters, Denis O’Hare e Bill Pullman. Juntos, esses veteranos entregam uma química explosiva forjada na mistura de cinismo, sagacidade e muita coragem. No fim das contas, a série deixa um recado muito claro: salvar o mundo, definitivamente, não é só brincadeira de criança.