O novo xadrez do petróleo no Brasil: Ecopetrol avança na produção nacional em meio à crise no fornecimento de diesel

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A petroleira colombiana Ecopetrol está a um passo de extrair seus primeiros barris no Brasil. Na última semana, a empresa fechou um acordo de compra e venda de ações para adquirir cerca de 26% do capital social da Brava Energia. A movimentação, no entanto, é apenas a primeira etapa de uma estratégia bem mais agressiva. A conclusão definitiva do negócio está condicionada a transações futuras que deverão garantir aos colombianos o controle de 51% do capital votante da companhia brasileira.

A trajetória de recuperação da Brava

Para entender o peso dessa aquisição, é preciso olhar para a recente reestruturação do setor. A Brava Energia nasceu da incorporação da Enauta pela 3R Petroleum, finalizada em 2024. Desde então, a empresa expandiu fortemente sua presença comprando campos da Petrobras. Esse portfólio abrange desde ativos terrestres nas bacias do Recôncavo e Potiguar até operações em águas rasas e profundas, incluindo os campos de Papa-Terra, Argonauta (BC-10) e Atlanta.

Os números confirmam o ganho de escala. Em fevereiro de 2026, dados da ANP mostraram que a Brava alcançou uma produção de aproximadamente 80 mil barris de óleo equivalente por dia (boe/d). O salto foi expressivo. Em 2025, o volume produzido já havia crescido 46% em relação ao ano anterior, impulsionado pelo excelente desempenho operacional em Atlanta e Papa-Terra.

Corretoras do mercado financeiro têm avaliado a saúde da empresa com um otimismo cauteloso. A fusão trouxe claros avanços na geração de caixa. Em 2025, a Brava conseguiu reverter o prejuízo de 1,1 bilhão de reais do ano anterior, anotando um lucro líquido de 1,4 bilhão de reais (cerca de 280 milhões de dólares), com o Ebitda subindo 3% e atingindo 4,6 bilhões de reais. Analistas enxergam um ponto de virada operacional claro, sustentado pela eficiência dos ativos offshore. Ainda assim, o nível de endividamento segue no radar como o principal risco de curto prazo, exigindo uma execução consistente do seu plano de negócios.

Expansão exploratória e reestruturação de ativos

Hoje, a Ecopetrol já detém participação em 11 blocos exploratórios na bacia de Santos e no campo de Gato do Mato, cuja operação é da Shell e tem início de produção previsto para 2029. Ao assumir o controle da Brava, os colombianos ganharão passaporte direto para novas fronteiras exploratórias promissoras, com destaque para a bacia da Foz do Amazonas, além de blocos no Pará-Maranhão, Sergipe-Alagoas, Paraná, Potiguar e Espírito Santo. O apetite no país já havia sido antecipado. Em 2025, o chefe de operações da Ecopetrol no Brasil, Jorge Martínez, revelou à Bloomberg que a empresa buscava ativamente novos negócios, inclusive mirando ativos terrestres da Petrobras na Bahia. Na Colômbia, as duas estatais já mantêm parceria no desenvolvimento do megaprojeto de gás offshore Sirius.

Enquanto desenha sua venda para a Ecopetrol, a Brava também enxuga seu portfólio. Nesta segunda-feira, 27 de abril, a companhia assinou um acordo com a própria Petrobras para a venda de 100% de uma parcela do “ring-fence” do campo de Argonauta, na bacia de Campos. Essa fatia corresponde a 0,86% do reservatório compartilhado do pré-sal de Jubarte. O negócio, avaliado em 700 milhões de reais mais 150 milhões de dólares, será pago em três parcelas e ainda aguarda o aval da ANP.

Impactos globais no abastecimento doméstico

Se no mercado de produção o cenário é de aquisições e otimismo, o setor de abastecimento de combustíveis no Brasil enfrenta o impacto imediato das tensões geopolíticas. O país depende de importações para suprir entre 20% e 30% do seu consumo de diesel. Desde os embargos europeus de 2023, a Rússia havia tomado o lugar dos Estados Unidos e se consolidado como a principal fornecedora do mercado brasileiro. Agora, a recente escalada militar envolvendo o Irã provocou uma disparada nos preços globais, alterando subitamente as rotas de navios que abasteceriam o Brasil.

A agência Reuters reportou nesta segunda-feira que pelo menos dois navios-tanque carregados com diesel russo de ultrabaixo teor de enxofre mudaram seus destinos em alto-mar. As embarcações saíram do porto de Primorsk, no Báltico, em março, e já haviam percorrido quase metade do caminho. Com a mudança drástica nas condições de mercado, os compradores da carga foram simplesmente substituídos. O navio Flora 1, de bandeira camaronesa e carregado com 37 mil toneladas de diesel, rumou para o Canal de Suez. Já o Aurora, sob bandeira de São Tomé e Príncipe, deu meia-volta no oceano Atlântico e agora navega em direção ao Estreito de Gibraltar.

Sanções europeias e o desafio nas refinarias

O cenário marítimo atual é de forte incerteza operacional. Dois outros navios, que somam uma carga de 106 mil toneladas de diesel embarcadas em abril, pararam completamente seus motores e encontram-se à deriva na rota para o Brasil. A expectativa inicial do mercado era de que as entregas de diesel russo aos portos brasileiros ultrapassassem as 800 mil toneladas apenas neste mês.

Para tentar suprir a demanda interna em meio a essa crise de desvios de carga e alta dos preços, a Petrobras colocou suas refinarias para operar em capacidade máxima. Esse aperto no fornecimento global coincide com um cerco internacional cada vez mais rígido. No último dia 23 de abril de 2026, a União Europeia aprovou seu 20º pacote de sanções contra Moscou. A medida foca cirurgicamente no setor energético russo e na chamada “frota fantasma” utilizada para driblar as restrições comerciais no oceano. O pacote baniu o acesso de mais 46 embarcações a portos internacionais, elevando a lista de navios restritos a 632, e criou novos mecanismos focados em empresas de países terceiros e seguradoras marítimas para asfixiar as receitas de exportação da Rússia.