O abismo no ecossistema da Motorola: do ambicioso (e imperfeito) Razr Fold ao sobrevivente Moto G22

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É meio surreal pensar que os dobráveis já estão no mercado há tempo suficiente — e evoluíram a ponto de — para eu pegar um aparelho de ponta, perfeitamente usável, e pensar: “É… dava pra fazer melhor”. Essa tem sido a minha rotina nos testes iniciais com o novo Motorola Razr Fold. O brinquedo de 1.900 dólares tem praticamente tudo que você pediria num dobrável estilo livro. A pegada é boa, as telas são um espetáculo à parte e, no papel, ele tem uma bateria que promete humilhar a concorrência. Só que, no uso prático, eu ainda me pego preferindo o Samsung Galaxy Z Fold 7 do ano passado, isso sem contar que fico de olho na rádio peão sobre o tão especulado iPhone Fold. A real é que o mercado de dobráveis está ficando lotado e, cobrando tão caro, não sei se o Razr fez o bastante para se destacar de verdade.

O que me agradou de cara: o bicho voa graças ao processador Snapdragon 8 Gen 5. O display interno é um LTPO OLED de 8,1 polegadas com taxa de atualização variável de até 120Hz e HDR10+, enquanto a tela externa pOLED de 6,6 polegadas entrega absurdos 165Hz. O brilho bate a casa dos 6.200 nits, e todo o pacote de IA (Google Gemini, Perplexity, Moto AI, Microsoft Copilot) marca presença. A multitarefa também flui solta com uma interface intuitiva. Tem uma barra de tarefas horizontal na parte de baixo da tela interna; você pode simplesmente arrastar um aplicativo para cima e dividir a tela meio a meio, ou deixá-lo flutuando como uma janela livre que dá para redimensionar à vontade enquanto roda outra coisa no fundo.

Mas aí a gente esbarra no peso da realidade. Ano passado, eu gamei no formato do Galaxy Z Fold 7. Era o dobrável mais fino e leve que eu já tinha encostado, e virou minha régua de comparação. É justamente aí que o Razr Fold tropeça. O Z Fold 7 pesava só 215g e tinha 4,2mm de espessura aberto (8,9mm fechado). O Razr bate 243g, medindo 4,5mm aberto e 9,89mm fechado. Na teoria, não parece um abismo, mas no dia a dia, você sente o tranco. Ele é perceptivelmente mais pesado e um tanto trambolhudo. Num mundo onde a Samsung já provou que dá para ser ultrafino, fica muito difícil aceitar voltar atrás.

Onde a Motorola poderia realmente virar o jogo? Na autonomia. Eles enfiaram uma bateria imensa de 6.000mAh no Razr Fold, deixando os 4.400mAh do meu Z Fold 7 comendo poeira. O problema é que eu não faço a menor ideia se essa promessa se sustenta. A unidade de testes que a Motorola me mandou simplesmente deu pau e se recusa a carregar direito, apesar de suportar 80W no cabo e 50W sem fio. Disseram que é um defeito isolado e já estão mandando uma peça de reposição, mas até lá, meu dobrável de quase 2 mil dólares virou um peso de papel bem caro.

E é nessas horas de apuro tecnológico que a gente acaba resgatando aquele guerreiro da gaveta. Sem poder usar o dobrável, o jeito foi transferir meu chip Nano SIM para um aparelho bem mais modesto: o Motorola Moto G22.

Sair de um dobrável futurista direto para um celular de entrada do início de 2022 é um choque bizarro, mas que escancara a flexibilidade da própria Motorola. O G22 não quer reinventar a roda; ele é o famoso pau pra toda obra. Rodando Android 12 com a interface MyUX, ele entrega aquele feijão com arroz que você sabe que vai ligar e funcionar.

Para entender o contraste, dá uma olhada no hardware que está me salvando no momento:

Ficha Técnica de Sobrevivência: Motorola Moto G22 (2022/1)

Especificação Detalhes
Processamento Helio G37 MediaTek MT6765V/CB (4x 2.3 GHz Cortex-A53 + 4x 1.8 GHz Cortex-A53) de 64 Bit
Gráficos e Memória GPU PowerVR GE8320 / 4 GB de RAM / 128 GB de armazenamento (Expansível via MicroSDXC até 1024 GB)
Tela 6.5″ IPS LCD com taxa de 90 Hz, 720 x 1600 pixels de resolução (270 ppi) e 16 milhões de cores
Câmeras Traseiras 50 Mp (F 1.8) + 8 Mp (F 2.2) + 2 Mp (F 2.4) + 2 Mp (F 2.4) com Autofoco, Detecção Facial, HDR e Flash LED
Câmera Frontal 16 Mp (F 2.0) com ângulo máximo de 118° e opções de HDR
Vídeo Gravação e Câmera Frontal em Full HD a 30 fps com autofoco
Conectividade 4G LTE, Wi-Fi 802.11 a/b/g/n/ac, Bluetooth 5.0 (A2DP/LE), USB Type-C 2.0, GPS (A-GPS/GLONASS/Galileo), Rádio FM
Design e Bateria 163.95 x 74.94 x 8.49 mm, pesando 186 gramas. Bateria LiPo de 5000 mAh.
Sensores Impressão digital, Acelerômetro, Proximidade, Giroscópio e Bússola. Suporte a Dual SIM (Dual Stand-by).

Obviamente, a tela IPS de 90Hz do G22 não ofusca a visão como os displays do Razr, e o conjunto quádruplo traseiro (mesmo ostentando 50 megapixels na lente principal, assim como as câmeras do dobrável) serve muito mais para registros básicos do que para criar conteúdo hiper-realista. Além disso, não tem 5G, NFC ou TV. Mas, ironicamente, pesando só 186 gramas, a pegada no pulso é um alívio em comparação ao bloco de metal de 243g do Razr. E a melhor parte: a bateria LiPo de 5.000mAh do G22 carrega. Sem drama.

Voltar ao básico enquanto espero a Motorola trocar minha unidade do Razr Fold me fez ponderar algumas coisas. O Razr tem um trunfo na manga que testei muito de relance antes dele apagar: suporte nativo ao acessório Moto Pen Ultra. Eu nem sou o maior fã de canetinhas, mas considerando que a Samsung capou o suporte oficial à S Pen no Z Fold 7, isso pode ser um baita diferencial para quem usa o celular para produtividade gráfica.

Resta saber se, quando o modelo novo chegar e finalmente der para espremer aqueles 6.000mAh até o fim, a autonomia e as funcionalidades vão compensar o peso extra e o investimento salgado. A tecnologia dobra e desdobra para tentar impressionar a gente, mas às vezes, no fim do dia, você só quer um celular que não te deixe na mão.