Itapecuru - MA,
 

Pesquisar


   · ÚLTIMAS NOTÍCIAS
   · NOTÍCIAS
   · EDIÇÕES
   · EXPEDIENTE
   · FALE CONOSCO
   · MAPA DO SITE


   · CEP
   · Infrações
   · Licenciamento
   · Clima e Tempo
   · Links Úteis

Home » O Jornal » Edições » Edição 113 » Destaques
Página
Imprima esta PáginaEnvie texto para um amigo


Publicada em: 5 de julho de 2006
Ajustar Fonte: AAA

o calendário religioso de Itapecuru, três festas se destacavam, pelo modo como eram preparadas, pela animação que proporcionavam à cidade e pela participação popular.

Tomando por base os itens acima relacionados, pode-se afirmar que a festa de São Benedito figurava em primeiro lugar e o auge de sua comemoração dava-se a 1º de janeiro.O comerciante Abdala Buzar Netto era quem cuidava de promovê-la.

Vinha em segundo lugar a festa da Cruz, programada para os meados do mês de outubro e organizada pela família Nogueira, tendo à frente Francisco Garcia Nogueira. Pontificava em terceiro lugar, a festa do Divino Espírito Santo, com a duração de treze dias, no curso do mês de maio, e patrocinada por Raimundo Francisco Veras.

Além das acima arroladas, não devem ser omitidas as festas de Nossa Senhora das Dores, a padroeira da matriz, organizada por dona Cirene Sitaro, e de São Vicente de Paula, sob a responsabilidade da confraria dos Vicentinos. Ambas, porém, não alcançavam a repercussão nem o brilho das festas de São Benedito, da Cruz e do Divino Espírito Santo.

ORIGENS DA FESTA DO DIVINO

Poderia começar a narrativa sobre as principais festas religiosas da minha cidade, por aquela que se coloca em primeiro plano. Mas deixarei esse critério à margem, para em seu lugar adotar o ponto de vista da cronologia, que me parece o mais adequado para situá-las( as festas) no tempo e no espaço.

Levando em conta, pois, o fator cronológico, a festa do Divino Espírito Santo é que dava a largada no calendário religioso de Itapecuru, porque comemorada no mês de maio.

Para que se possa ter um juízo de valor sobre a festa, convém buscar as origens dela e como chegou ao Brasil. Acredita-se que surgiu em Portugal com a construção da igreja do Espírito Santo, em Alenquer, pela rainha Dona Isabel, no século XII, mas chegou ao Brasil no século XVII, trazida pelos colonizadores.

A festa celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. É uma devoção ao Divino e uma homenagem ao Império, quase sempre representada por crianças. A hierarquia da corte é mantida com o imperador e a imperatriz, mordomos, vassalos, aias, alferes e caixeiras, mulheres vistosamente ornamentadas que ruflam caixas e entoam cânticos de louvor ao Divino.

A liturgia da festa requer também a participação de outros componentes, tais como coroa, pomba, estandartes coloridos, mastro, donativos, jóias, esmolas e fartas e mesas de doces e comidas.

No Brasil, granjeou as simpatias de brancos e escravos. No Maranhão, dada a sua arraigada tradição nos Açores, tudo indica que tenha aportado com os casais de ilhéus no período de 1615 a 1625.

Não disponho de informações a respeito da época em que a festa do Divino começou a ser comemorada em Itapecuru. Mas, considerando as tradições históricas e a presença de expressivos contingentes da raça negra( escravos) e de colonizadores portugueses no território itapecuruense, aqui instalados desde o século XVII, presume-se que tenha encontrado no município as condições propícias para impor-se como ritual sagrado e profano.

ANOS CINQUENTA

Pelo que se sabe, a festa do Divino passou a ser referência em Itapecuru a partir dos anos 50 do século passado, quando figuras da sociedade local, dentre as quais Luiz Ferraz, Pedro Tiago, José Paulo Bogéa, Carmina Costa, Coló de Abreu e Raimundo Francisco Veras assumiram a incumbência de dar-lhe nova feição e impondo-lhe organização mais esmerada.

Deve-se, contudo, ao comerciante Raimundo Francisco Veras e à esposa Castorina a relevância que o evento exigia, a exemplo do que já acontecia em outras partes do Maranhão, sobretudo nas concentradoras de afro-descendentes, como a cidade de Alcântara, não só pelo culto ao Divino Espírito Santo, mas também pelo ritual dedicado àquela manifestação de pensamentos, sentimentos e crenças de muitas origens e povos, conservados pela tradição.

A primeira providência tomada pelo casal Veras, com vistas a impregnar à festa uma inovadora e diferenciada dimensão, foi trazer para o centro da cerimônia as figuras do imperador e da imperatriz e os súditos da corte, representados pelas aias, mordomos, vassalos, alferes e caixeiras.

Para representar o imperador, o escolhido foi o próprio filho do casal promotor da festa, o garoto Raimundo Veras, de 13 anos e que reinou durante muito tempo na função. Para interpretar o papel de imperatriz, convidou-se a jovem Lisiane Bogéa Buzar, substituída nos anos seguintes por Janete Fiquene, Mariquita Costa e Socorro Muniz.

O imperador e a imperatriz se vestiam rigorosamente de roupas deslumbrantes, que lembravam os tempos da corte imperial. A indumentária era confeccionada pela competente costureira, Mundica Pereira, que caprichava na preparação das vestimentas, inspiradas no figurino da realeza.

O imperador, a imperatriz e os súditos saiam em cortejo régio pelas ruas da cidade, sempre acompanhados das caixeiras e da banda musical, que se alternavam nas homenagens ao Divino, em nome do qual arrebanhavam donativos e jóias, os quais, posteriormente se transformavam em abundantes mesas de doces e comidas, geralmente preparadas e servidas nas casas dos organizadores do festejo.

As caixeiras, via de regra, mulheres de idade mediana, tocavam com baquetas, caixas de madeira, entoavam versos rimados e seguiam passo a passo o ritual previamente determinado. Elas eram recrutadas na própria cidade, mas também vinham do município de Anajatuba e dos povoados de Felipa e Santa Rosa. Entre as mais devotadas àquela arte, sobressaiam-se Ana Júlia, Fausta, Antônia Lago, Delfina, Espírito Santo, Minoca, Chiquinha Pendão e Maria Menezes.

ROTEIRO E RITUAL

Como já foi dito, o cronograma da festa se estendia por 13 dias, no curso dos quais os festeiros, o imperador , a imperatriz e os súditos eram levados ao cumprimento de um roteiro cheio de cerimônias, algumas sagradas, outras profanas, englobadas em missas, ladainhas, novenas, cortejos, mesas de comidas e de doces, leilões, danças e foguetório.

Os rituais começavam na quarta-feira, véspera de Ascenção, com a chegada do mastro à cidade e de sua colocação em frente à igreja. Trazido do interior do município pelos juízes da festa- Zezeca Fonseca, Antônio Matos e Pedro Tiago, o mastro, formado de tronco de robusta árvore, devia possuir mais de 10 metros de altura. Recebido e conduzido por uma multidão de devotos, que sob intensa alegria e vibração, cuidava de plantá-lo em lugar apropriado, pois ali ficaria até o encerramento dos festejos. No topo do mastro, colocava-se uma bandeira, encaixilhada em um quadro de madeira, com uma coroa e a pomba do Divino. Frutas variadas enfeitavam o mastro.

Durante os dias seguintes, várias cerimônias seriam realizadas, realçando-se as visitas do imperador, este, conduzindo a coroa, e da imperatriz, esta, carregando a pomba do Divino, aos mordomos, quando se serviam doces variados, ao som dos instrumentos executados pelas caixeiras.

Na igreja, também, promoviam-se atos litúrgicos, assistidos pomposamente pela corte, que ocupava lugar de destaque e recebia as reverências das caixeiras. No Domingo de Pentecostes, pela manhã, celebrava-se a missa solene, e, no final da tarde, a procissão percorria as ruas da cidade, recebendo dos fiéis louvações e aplausos.

DECADÊNCIA DA FESTA

A festa do Divino em Itapecuru teve o seu processo de definhamento a partir do momento em que o seu promotor, Raimundo Francisco Veras, passou a sinalizar irreversível fragilidade física. Com a saúde precária, aos poucos foi se desinteressando da organização dos festejos, cujos custos financeiros recaiam sobre os seus ombros e exigiam dele ingentes esforços pessoais para bancá-los. Morreu sem encontrar alguém que o sucedesse à frente de um evento que marcou época na cidade.

O filho, Raimundo, que poderia substituí-lo, até porque sabia das características do ritual e conhecia as particularidades da festa, pois durante alguns anos desempenhou o papel de imperador, ficou sem condições de assumi-la, em face de sua mudança para São Luís, onde daria seqüência aos estudos.

Com o desaparecimento de Raimundo Francisco Veras, a festa do Divino Espírito Santo sumiu do calendário religioso da cidade e deixou de ser um evento urbano. Apenas no meio rural, sobretudo nos povoados de Santa Rosa do Barão e Felipa, ainda ocorrem manifestações alusivas ao Divino, mas sem a pompa exigida pelo ritual. Mas as caixeiras ainda subsistem e tocam e cantam em homenagem a uma tradição que precisa ser preservada.


© 2005 - 2006 Jornal de Itapecuru
R. Dr. Salomao Fiquene, 59 - Itapecuru Mirim - MA - 65000-000
WEZ

Inclusão: 05/07/2006 - Alteração: 05/07/2006