o calendário religioso de Itapecuru, três festas se destacavam, pelo modo como eram preparadas, pela animação que proporcionavam à cidade e pela participação popular.
Tomando por base os itens acima relacionados, pode-se afirmar que a festa de São Benedito figurava em primeiro lugar e o auge de sua comemoração dava-se a 1º de janeiro.O comerciante Abdala Buzar Netto era quem cuidava de promovê-la.
Vinha em segundo lugar a festa da Cruz, programada para os meados do mês de outubro e organizada pela família Nogueira, tendo à frente Francisco Garcia Nogueira. Pontificava em terceiro lugar, a festa do Divino Espírito Santo, com a duração de treze dias, no curso do mês de maio, e patrocinada por Raimundo Francisco Veras.
Além das acima arroladas, não devem ser omitidas as festas de Nossa Senhora das Dores, a padroeira da matriz, organizada por dona Cirene Sitaro, e de São Vicente de Paula, sob a responsabilidade da confraria dos Vicentinos. Ambas, porém, não alcançavam a repercussão nem o brilho das festas de São Benedito, da Cruz e do Divino Espírito Santo.
ORIGENS DA FESTA DO DIVINO
Poderia começar a narrativa sobre as principais festas religiosas da minha cidade, por aquela que se coloca em primeiro plano. Mas deixarei esse critério à margem, para em seu lugar adotar o ponto de vista da cronologia, que me parece o mais adequado para situá-las( as festas) no tempo e no espaço.
Levando em conta, pois, o fator cronológico, a festa do Divino Espírito Santo é que dava a largada no calendário religioso de Itapecuru, porque comemorada no mês de maio.
Para que se possa ter um juízo de valor sobre a festa, convém buscar as origens dela e como chegou ao Brasil. Acredita-se que surgiu em Portugal com a construção da igreja do Espírito Santo, em Alenquer, pela rainha Dona Isabel, no século XII, mas chegou ao Brasil no século XVII, trazida pelos colonizadores.
A festa celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. É uma devoção ao Divino e uma homenagem ao Império, quase sempre representada por crianças. A hierarquia da corte é mantida com o imperador e a imperatriz, mordomos, vassalos, aias, alferes e caixeiras, mulheres vistosamente ornamentadas que ruflam caixas e entoam cânticos de louvor ao Divino.
A liturgia da festa requer também a participação de outros componentes, tais como coroa, pomba, estandartes coloridos, mastro, donativos, jóias, esmolas e fartas e mesas de doces e comidas.
No Brasil, granjeou as simpatias de brancos e escravos. No Maranhão, dada a sua arraigada tradição nos Açores, tudo indica que tenha aportado com os casais de ilhéus no período de 1615 a 1625.
Não disponho de informações a respeito da época em que a festa do Divino começou a ser comemorada em Itapecuru. Mas, considerando as tradições históricas e a presença de expressivos contingentes da raça negra( escravos) e de colonizadores portugueses no território itapecuruense, aqui instalados desde o século XVII, presume-se que tenha encontrado no município as condições propícias para impor-se como ritual sagrado e profano.
ANOS CINQUENTA
Pelo que se sabe, a festa do Divino passou a ser referência em Itapecuru a partir dos anos 50 do século passado, quando figuras da sociedade local, dentre as quais Luiz Ferraz, Pedro Tiago, José Paulo Bogéa, Carmina Costa, Coló de Abreu e Raimundo Francisco Veras assumiram a incumbência de dar-lhe nova feição e impondo-lhe organização mais esmerada.
Deve-se, contudo, ao comerciante Raimundo Francisco Veras e à esposa Castorina a relevância que o evento exigia, a exemplo do que já acontecia em outras partes do Maranhão, sobretudo nas concentradoras de afro-descendentes, como a cidade de Alcântara, não só pelo culto ao Divino Espírito Santo, mas também pelo ritual dedicado àquela manifestação de pensamentos, sentimentos e crenças de muitas origens e povos, conservados pela tradição.
A primeira providência tomada pelo casal Veras, com vistas a impregnar à festa uma inovadora e diferenciada dimensão, foi trazer para o centro da cerimônia as figuras do imperador e da imperatriz e os súditos da corte, representados pelas aias, mordomos, vassalos, alferes e caixeiras.
Para representar o imperador, o escolhido foi o próprio filho do casal promotor da festa, o garoto Raimundo Veras, de 13 anos e que reinou durante muito tempo na função. Para interpretar o papel de imperatriz, convidou-se a jovem Lisiane Bogéa Buzar, substituída nos anos seguintes por Janete Fiquene, Mariquita Costa e Socorro Muniz.
O imperador e a imperatriz se vestiam rigorosamente de roupas deslumbrantes, que lembravam os tempos da corte imperial. A indumentária era confeccionada pela competente costureira, Mundica Pereira, que caprichava na preparação das vestimentas, inspiradas no figurino da realeza.
O imperador, a imperatriz e os súditos saiam em cortejo régio pelas ruas da cidade, sempre acompanhados das caixeiras e da banda musical, que se alternavam nas homenagens ao Divino, em nome do qual arrebanhavam donativos e jóias, os quais, posteriormente se transformavam em abundantes mesas de doces e comidas, geralmente preparadas e servidas nas casas dos organizadores do festejo.
As caixeiras, via de regra, mulheres de idade mediana, tocavam com baquetas, caixas de madeira, entoavam versos rimados e seguiam passo a passo o ritual previamente determinado. Elas eram recrutadas na própria cidade, mas também vinham do município de Anajatuba e dos povoados de Felipa e Santa Rosa. Entre as mais devotadas àquela arte, sobressaiam-se Ana Júlia, Fausta, Antônia Lago, Delfina, Espírito Santo, Minoca, Chiquinha Pendão e Maria Menezes.
ROTEIRO E RITUAL
Como já foi dito, o cronograma da festa se estendia por 13 dias, no curso dos quais os festeiros, o imperador , a imperatriz e os súditos eram levados ao cumprimento de um roteiro cheio de cerimônias, algumas sagradas, outras profanas, englobadas em missas, ladainhas, novenas, cortejos, mesas de comidas e de doces, leilões, danças e foguetório.
Os rituais começavam na quarta-feira, véspera de Ascenção, com a chegada do mastro à cidade e de sua colocação em frente à igreja. Trazido do interior do município pelos juízes da festa- Zezeca Fonseca, Antônio Matos e Pedro Tiago, o mastro, formado de tronco de robusta árvore, devia possuir mais de 10 metros de altura. Recebido e conduzido por uma multidão de devotos, que sob intensa alegria e vibração, cuidava de plantá-lo em lugar apropriado, pois ali ficaria até o encerramento dos festejos. No topo do mastro, colocava-se uma bandeira, encaixilhada em um quadro de madeira, com uma coroa e a pomba do Divino. Frutas variadas enfeitavam o mastro.
Durante os dias seguintes, várias cerimônias seriam realizadas, realçando-se as visitas do imperador, este, conduzindo a coroa, e da imperatriz, esta, carregando a pomba do Divino, aos mordomos, quando se serviam doces variados, ao som dos instrumentos executados pelas caixeiras.
Na igreja, também, promoviam-se atos litúrgicos, assistidos pomposamente pela corte, que ocupava lugar de destaque e recebia as reverências das caixeiras. No Domingo de Pentecostes, pela manhã, celebrava-se a missa solene, e, no final da tarde, a procissão percorria as ruas da cidade, recebendo dos fiéis louvações e aplausos.
DECADÊNCIA DA FESTA
A festa do Divino em Itapecuru teve o seu processo de definhamento a partir do momento em que o seu promotor, Raimundo Francisco Veras, passou a sinalizar irreversível fragilidade física. Com a saúde precária, aos poucos foi se desinteressando da organização dos festejos, cujos custos financeiros recaiam sobre os seus ombros e exigiam dele ingentes esforços pessoais para bancá-los. Morreu sem encontrar alguém que o sucedesse à frente de um evento que marcou época na cidade.
O filho, Raimundo, que poderia substituí-lo, até porque sabia das características do ritual e conhecia as particularidades da festa, pois durante alguns anos desempenhou o papel de imperador, ficou sem condições de assumi-la, em face de sua mudança para São Luís, onde daria seqüência aos estudos.
Com o desaparecimento de Raimundo Francisco Veras, a festa do Divino Espírito Santo sumiu do calendário religioso da cidade e deixou de ser um evento urbano. Apenas no meio rural, sobretudo nos povoados de Santa Rosa do Barão e Felipa, ainda ocorrem manifestações alusivas ao Divino, mas sem a pompa exigida pelo ritual. Mas as caixeiras ainda subsistem e tocam e cantam em homenagem a uma tradição que precisa ser preservada.