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Publicada em: 29 de maio de 2006
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A PROFESSORA QUE FEZ DA EDUCAÇÃO SUA MARCA DE VIDA


Três professoras marcaram a minha vida na infância e na juventude. Delas guardo até hoje as mais inolvidáveis lembranças, porque tiveram decisiva influência na minha formação moral e intelectual.

A primeira, Anozilda Santos Fonseca, carinhosamente chamada de Santinha. Foi ela que me alfabetizou, em Itapecuru, cidade onde nasci. Não sei dizer da metodologia usada para que eu conhecesse, sem grande dificuldade, as letras do alfabeto, através das quais começasse a construir as palavras e passasse a formar as frases. Posso, contudo, afirmar que o processo era eficiente e rápido, pois grande parte dos meus conterrâneos e colegas de geração deu-se bem com o processo inventado e aplicado pela jovem professora.

Alfabetizado, na primeira metade da década de quarenta, em seguida, passei a freqüentar o Grupo Escolar Gomes de Sousa, à época, instalado e funcionando na residência particular do coronel Joaquim Nogueira da Cruz, cedida especialmente ao poder público para cumprir a função de educar as crianças itapecuruenses. Era uma casa grande, com várias salas, bem arejada e localizada nas proximidades do velho mercado, razoavelmente adequada aos objetivos educacionais.

A segunda, Celestina Nogueira da Cruz, na intimidade conhecida por Celé, substituta de Santinha na missão de ministrar-me o curso primário. Professora competente e exigente, contribuiu sobremodo para melhorar o nível do ensino no Grupo Escolar Gomes de Sousa.

Mercê do meu bom curso primário, para o qual Celé teve papel preponderante, consegui ser aprovado, em 1950, no Colégio dos Maristas, na primeira arrancada com vistas ao exame de admissão ao ginásio.

A terceira, Maria de Jesus Carvalho, que reunia qualidades excepcionais como mulher e mestra. A conheci no Liceu Maranhense, como professora de História e Geografia. Dela fui aluno no ginásio e no científico, ao tempo em que recebi as mais sábias lições de vida e recolhi os mais belos exemplos de dignidade.

A SANTA PROFESSORA

Ao colocar no meu santuário de recordações essas três mulheres, o fiz com o objetivo de realçar e homenagear uma delas. Trata-se da professora Anozilda Santos Fonseca ou Santinha, que, nesta quarta-feira, dia 26, chega aos 90 anos, mas para felicidade de seus familiares, ex-alunos e amigos, encontra-se no gozo de invejável lucidez e de inquebrantável vitalidade. Ela é a sobrevivente de uma gloriosa trindade, que me proporcionou sólida base educacional. Por isso, merece que sua história de vida seja por mim contada e louvada.

Santinha veio ao mundo a 26 de abril de 1916, na cidade de Guimarães, filha da doméstica Antoninha Santos e do farmacêutico Manoel Lopes dos Santos. Estava com oito anos, quando os pais tomaram a decisão de mudar de residência, pois pensavam nos onze filhos, que precisavam estudar e de melhores condições de vida.

O pai, um farmacêutico competente e corajoso, chegou em São Luís com o propósito de montar uma botica. Com os recursos amealhados em Guimarães, materializou o seu projeto na rua de Santana, onde montou a Farmácia Santos, rapidamente transformada em ponto de referência pelo estoque de remédios e pela capacidade do proprietário, que, como se fosse médico, consultava e receitava os clientes.

O exemplo e o sucesso do pai, deram a Santinha o sentimento de que poderia seguir-lhe os passos, mas a mãe interrompeu o projeto da filha, não deixando que se preparasse para ingressar na Faculdade de Farmácia de São Luís. Dona Antoninha desejava fazer dela uma renomada professora. Por isso, matriculou-a nos melhores colégios da Capital: Escola Modelo, Convento de Santa Teresa, Ateneu, Rosa Castro e Liceu Maranhense, onde recebeu o diploma de normalista, por volta de 1936.

Diplomada, Santinha partiu para buscar o tão almejado emprego. Mas só três anos depois, ou seja, em 1939, o conseguiu. Assim mesmo em caráter precário, na condição de professora substituta, no interior do Estado.

Assinou contrato para prestar serviços na cidade de Itapecuru, no Grupo Escolar Gomes de Sousa, que não possuía prédio próprio e funcionava numa casa particular. Ficou apenas um ano na função, pois a titular, voltara às atividades. Logo depois, outra professora, na mesma cidade, pediu licença para tratamento de saúde e ela novamente foi convocada para substituir a titular. Cumprida a missão, voltou a São Luís. Mais uma vez assinou contrato para lecionar, também como substituta, em um colégio localizado no interior da Ilha.

CASAMENTO TUMULTUADO

Santinha, nos idos de 1941, no exercício das funções de professora substituta, conheceu em Itapecuru um rapaz forte e bem disposto chamado José Barbosa Fonseca, mais conhecido por Zezeca, na época, prestando serviços ao Exército.

O namoro logo veio à tona e rapidamente se transformou em avassaladora paixão. Mas o rapaz, infelizmente, não caiu nas graças de dona Antoninha, que desejava para a filha um candidato da Capital e dotado de futuro mais promissor. Zezeca fazia parte de família humilde e por azar sem emprego. Quanto mais a mãe pressionava, mais Santinha se empolgava com a conversa e o porte físico do jovem itapecuruense.

Na tentativa de sufocar aquela arrebatada paixão, dona Antoninha exilou a filha em Guimarães. Não adiantou nada, porque o namorado, também perdido de amores, partiu atrás da amada, apenas com a cara e a coragem.

O auge daquela perseguição ocorreu em São Luís, quando flagrou Santinha e Zezeca, na porta de casa, em tórrido romance. A cena ultrapassara todos os limites de tolerância da matriarca, que, em rompante de agressividade, deu um tapa na filha, um procedimento reprovável, mas típico da época.

Diante de tamanha hostilidade, só restava a Santinha a alternativa de uma reação igual e contrária. Às escondidas e ajudada pelos vizinhos, que se apiedaram dela e passaram a dar força àquele idílio, encontrou-se com o namorado e com ele preparou um desfecho definitivo para o rumoroso caso.

Acertaram um plano arriscado, mas o único indicado para livrá-los daquela situação constrangedora. Às 11 horas do dia, Santinha fugiria sob a proteção do amado. Preparada a logística da fuga, rezava o combinado que, para a delicada operação ser realizada com êxito, a filha diria à mãe que se ausentaria de casa para tratar de um assunto no Departamento de Instrução do Estado.

Dona Antoninha engoliu a pílula, o que facilitou sobremodo a transladação da namorada da rua de Santana para a casa em que estava hospedado o namorado, na rua do Mocambo.

Finalizada com sucesso a “operação fuga”, que contou com a colaboração da vizinhança dos namorados, as atenções voltaram-se para a etapa seguinte do plano:

as tratativas da união jurídica do casal rebelado. Ele sem emprego e ela sem dinheiro, a solução foi o despojamento dos bens pessoais de Santinha, obrigada a vender um precioso anel de ouro, por ironia, presente da mãe, para cobrir as despesas inerentes ao casamento, dentre os quais, os imprescindíveis documentos cartoriais e roupas adequadas aos nubentes para a cerimônia. O dinheiro foi tão farto que a noiva apresentou-se diante do juiz vestida de branco, com véu e grinalda.

Concluídas essas providências, às 2 horas da tarde do dia 8 de maio de 1942, depois de um ano de tumultuado namoro, Santinha e Zezeca, ambos com 26 anos, chegaram ao Tribunal de Justiça para a celebração do ato nupcial, presenciado apenas por alguns vizinhos das ruas de Santana e do Mocambo. Minutos antes, o juiz ainda tentou persuadi-los a mudarem de idéia. Mas aí Santinha virou Anozilda e manteve-se firme e decidida.

RETORNO A ITAPECURU

Cinco dias após o casamento, Santinha e Zezeca chegaram à conclusão de que teriam de viajar para Itapecuru, onde moravam os pais dele, na suposição de que, naquela cidade, tinham pelo menos comida e casa para morar. Em lá chegando, enfrentaram dificuldades, tudo por conta da morte do pai de Zezeca, o velho Artur. Mas a mãe, dona Mundica, que ao saber do casamento, quase morre de susto, com a sua vontade indômita, teve de desdobrar-se nas atividades domésticas para nada faltar ao casal.

Para ajudar dona Mundica no sustento da família, Santinha resolveu lecionar em casa, valendo-se dos anos em que esteve em Itapecuru como professora substituta, quando se tornou conhecida e fez bom relacionamento. Fui um de seus primeiros alunos, devo-lhe, portanto, como já disse, o meu processo de alfabetização.Além do ensino particular, conseguiu um lugar de professora no Colégio Rio Branco, graças à benevolência do proprietário, o professor João da Silva Rodrigues.

Três meses depois do casamento, ela teve de vir a São Luís por força de um acontecimento triste: a morte do pai. Ao saber da vinda da filha, dona Antoninha, impôs uma condição: não trazer o marido, pois ainda não esquecera as agruras de um casamento indesejado. Santinha atendeu o pedido da mãe, mas não deixou de lhe pedir perdão pelo ato praticado, àquela altura dos acontecimentos literalmente irremediável.Mas graças àquele gesto, a partir daquele dia, a mãe passou a não mais hostilizar o genro.

No correr de 1943, a sorte começou a arejar a vida do casal, dando-lhe mais estabilidade, até porque o primeiro rebento já anunciava a chegança. Tudo aconteceu quando o engenheiro Emiliano Macieira, então diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, órgão que construía a rodovia São Luís-Itapecuru, visitou a cidade. Santinha não perdeu tempo. Procurou-o e pediu emprego para o marido. Dr. Emiliano, amigo da sua família, prometeu e cumpriu.

No ano seguinte, uma notícia alvissareira chegava ao conhecimento de Santinha. O Governo do Estado construiria um grupo escolar em Itapecuru, para atender a demanda crescente de matrículas e levando em conta de que a casa onde funcionava o colégio não mais satisfazia às exigências educacionais do município. O interventor Paulo Ramos chega a Itapecuru, para junto com o prefeito Bernardo Tiago de Matos, escolher o local onde seria levantado o grupo escolar.

Santinha, mais uma vez, não deixou a oportunidade fugir. Aproximou-se do interventor e apresentou-se como professora e desempregada. Paulo Ramos impressionou-se com a desenvoltura e a iniciativa da normalista e prometeu nomeá-la.

DE PROFESSORA A DIRETORA

Não levou muito tempo para Santinha receber o seu ato de nomeação. Imediatamente, começou a trabalhar no velho e improvisado Grupo Escolar Gomes de Sousa, sob a direção da professora Sinhá Tavares, onde já havia lecionado como substituta.

Dois anos depois, ou seja em 1946, o novo grupo escolar é entregue à cidade, em solenidade que contou com as presenças do interventor Saturnino Bello e do prefeito Abdala Buzar Neto, um evento festivo que proporcionou muita alegria à população.

Santinha, no novo colégio, impõe-se pela capacidade de liderança e da competência na arte de ensinar e lidar com adolescentes. Por isso, quando nos meados da década de 50, a então diretora do Gomes de Sousa, professora Cotinha, aposenta-se, espontaneamente, o nome dela vem à tona para substituí-la. As autoridades do município e a comunidade apontam-na, por mérito e direito, para dirigir o Grupo Escolar, cuja iniciativa foi homologada pela cúpula da Secretaria de Educação do Estado do Maranhão.

No exercício da função, ficou cerca de vinte anos, no correr dos quais conquistou os corpos docente e discente, pela maneira democrática e transparente como conduzia a administração do colégio. Em alguns momentos, a sua cabeça chegou a ser pedida por certos prefeitos, por não se submeter às injunções e aos caprichos da política municipal. Todavia, a sociedade itapecuruense reagia contra aquelas manobras, levando as autoridades educacionais a desprezarem tais pressões, na convicção de que o comportamento da diretora à frente do estabelecimento de ensino primava pela seriedade e pela retidão de princípios.

Se as coisas passaram a melhorar, do ponto de vista pessoal e profissional para Santinha, também não foi diferente para Zezeca. As rugas entre o genro e a sogra foram se pulverizando e sendo colocadas à margem, a ponto de dona Antoninha perdoá-lo, acolhê-lo como pessoa de seu bem-quer, e o mais inacreditável: não descansou enquanto não conseguiu, mercê de seu relacionamento com autoridades públicas, um emprego federal para ele no Departamento dos Correios e Telégrafos na função de guarda-fio.

Em 1969, Santinha, após muita reflexão, tomou a decisão de mudar completamente o rumo de sua vida familiar. Em função dos nove filhos que teve, alguns já precisando de ensino universitário e outros de emprego,resolveu deixar Itapecuru, onde viveu boa parte de sua existência, construiu um lar e se fez respeitada e conceituada. Não foi uma decisão fácil, mas imposta pelas circunstâncias e em nome de um futuro mais auspicioso para os seus dependentes.

Negociou a sua transferência para São Luís com a Secretaria de Educação, sendo a mesma deferida, sem perder as vantagens e os direitos adquiridos. Passou o cargo de diretora do Gomes de Sousa para a amiga e professora Maud Mubarack, assumiu em São Luís a diretoria de um colégio no bairro do Sacavém e ainda conseguiu com o então governador José Sarney uma casa para morar,construída pelo IPEM. Anos depois, por razões pessoais, pediu remoção para o Colégio Júlio Mesquita, na Cohab, na direção do qual manteve-se até o ano do seu pedido de aposentadoria, ocorrido em 1974.

Ao escolher São Luís como nova residência, Santinha, no correr desse tempo, teve a tristeza de ver desaparecer de seu convívio três entes queridos: o companheiro, Zezeca, em 1977, a mãe, em 1981, e a filha, Socorro, em 1989. Em compensação, as alegrias foram imensas e radiosas, dentre as quais o fato de contar nos dias de hoje com o amor e o carinho de nove filhos, que lhes deram até agora trinta e cinco netos e vinte bisnetos.

Benedito Buzar é jornalista e membro da Academia Maranhense de Letras.


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Inclusão: 29/05/2006 - Alteração: 29/05/2006