Não tem jeito. Seja em casa ou no trabalho; na igreja ou na política; na imprensa ou no barzinho do seu Zé, lá estará ela: a fofoca. Atire a primeira pedra quem nunca fofocou. A fofoca é como a inveja: um mal que só “os outros” têm. Ou seja, todo mundo fofoca, mas ninguém assume que é fofoqueiro. Talvez isso acontece porque há fofocas e fofocas.
Dizem os mais velhos que “uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”. Parafraseando essa pérola filosófica do povão, podemos afirmar que existem fofocas e fofocas. Como diferenciar umas das outras? Não sou nenhum “fofocólogo”, mas vou ousar a fazer uma distinção entre uma fofoca inofensiva e uma destrutiva.
Talvez a fofoca seja a coisa mais democrática que existe, pois fofoca-se sobre tudo e de todos. Arriscaria, inclusive, a afirmar que, ao lado do futebol, a fofoca é a grande paixão nacional. A gente gosta de contar, gosta de ouvir e fica danado da vida quando é o último a saber da fofoca.
Todavia, há os casos onde a fofoca ganha viés patológico. Isso ocorre quando a fofoca deixa de ser algo trivial e passa a ganhar contornos muito próximos da calúnia. Aí, não há dúvida que uma fofoca pode acabar com a reputação de uma pessoa. Fazer fofoca, que ponha em risco a estabilidade de uma família, por exemplo, é coisa muito séria.
No ambiente de trabalho, a fofoca costuma ser um das “tarefas” desempenhadas pelos colaboradores, diariamente. Ela está presente em todos os níveis hierárquicos e costuma ser mais eficiente que muitas correspondências formais das organizações.
Fofoca é comunicação, ou melhor, ruído de comunicação, posto que nem sempre corresponde a um fato verídico. Mas, onde há fumaça há fogo, nos ensina o ditado popular. Por isso, na grande maioria das vezes a fofoca se refere a algo factual. Ela pode ser direcionada para o bem se tem a intenção de avisar um amigo sobre alguma “traíragem”
que estejam tramando. Ou ter por objetivo informar sobre uma mudança importante na empresa que ainda não é oficial, mas que mexe com vida dos colaboradores. Aliás, a fofoca atrai justamente porque trata quase sempre do proibido, daquilo que não é notório.
O grande perigo, como disse acima, é a fofoca ganhar um rumo de desqualificação da vida alheia. Nesse caso, deve ser evitada de ser ouvida, e se ouvida, não passada adiante. No que somará para a empresa ou para o currículo do colaborador, por exemplo, falar que fulano meteu chifre em sicrano; que beltrano não gosta de mulher; que cigano comprou um carro zero sem ter condições pra isso...? Ou seja, é desperdício de tempo e de caráter ficar comentando, ou melhor, fofocando sobre algo que não irá somar em nada para nosso bem-estar mental e espiritual, principalmente se o conteúdo da fofoca comprometer a vida pessoal, familiar e profissional da “vítima”.
Há que mantermos a clara distinção entre uma “fofoca sadia” – que às vezes funciona até como informação estratégica – da fofoca maldosa, desqualificadora, cujo único objetivo é causar intrigas e discórdia entre as pessoas. Nesse caso vale a passagem bíblica, do Livro de Tiago(1.26) que diz: “Alguém está pensando que é religioso? Se não souber controlar a língua, a sua religião não vale nada, e ele está enganando a si mesmo.”
Confesso que a passagem da Bíblia acima mexeu comigo de certa forma, e como não desejo ir para as profundezas do inferno, ficarei vigilante para não ser seduzido por essa mulher quase irresistível que atende pelo nome de “fofoca”.