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Publicada em: 21 de maio de 2006
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Antônio de Pádua Silva Sousa
pádua@elo.com.br

A soja chegou ao Baixo Parnaíba. Um sonho verde que pode durar pouco e se transformar num pesadelo eterno. Esta micro-região do nosso Estado comportou por seis municípios, Água Doce, Araioses, Magalhães de Almeida, Santa Quitéria, Santana do Maranhão e São Bernardo, compreende uma área um pouco maior que 7.000 Km2 e tem população em torno de 110 mil habitantes. São Bernardo é um dos mais antigos núcleos populacionais da região. Nasceu no ciclo do gado. Um português de nome Bernardo Carvalho, à semelhança de Garcia D’ávila, na Bahia, foi construindo currais e espalhando gado, ao mesmo tempo que se apossava das terras. Inúmeras cidades do Piauí e Maranhão nasceram nessa época. São Bernardo é uma delas.

Volto a minha terra com a certeza quer um novo ciclo se inicia. Nestes tempos de Páscoa, assisto extremamente preocupado a esta nova passagem que começa a atravessar minha sempre esquecida região. Todos nós sabemos que as nossas chuvas são escassas, que os nossos rios são frágeis. Mesmo o Rio Parnaíba, a bem da verdade, não possui mais a suntuosidade de outras épocas. Até o velho Monge já claudica. Desta forma, não sei como se comportarão eles, se a estação das chuvas for prejudicada com a devastação impiedosa das nossas matas, feitas pelos homens da soja. São milhares de faveiras, bacurizeiros, pequizeiros, pau d’arcos, toda uma floresta que ao ranger das correntes puxadas por grandes tratores é arrasada, destruída, deixando um vazio de vida que o sol causticante findará de calcinar. É todo um ecossistema alterado de uma maneira aguda e sem compromisso. Não sou um especialista em danos ambientais, mas quero ser o porta-voz do clamor do meu Rio Buriti, ”corrente parda de saudade”, como o chamava Bernardo de Almeida e de tantos outros que espalham vida e por certo sucumbirão. Gostaria que este texto servisse de alerta aos governantes da minha região: atentai para os danos que estão sendo perpetrados contra nosso meio ambiente! Amanhã, quando a fertilidade do nosso solo se exaurir, estes homens brancos de olhos azuis estarão distantes e sobre vós pesará a maldição da história.

Dirão alguns por certo que os meus temores são cuidados de filho ausente. Pode ser que sim, mas meu tio Raimundo Brás, velho caçador das chapadas da Melancia, do alto dos seus 86 anos, quando nesta Páscoa o visitei, em Magalhães de Almeida, ao ver-me foi dizendo: “meu sobrinho, acabaram tudo! Não tem mais cotia, nem tatu, nem peba... A soja acabou tudo. Só me conformo porque este velho caçador também já está se acabando”.

Em São João dos Pilões, colônia de artesãos no município de Brejo, um velho artesão, ao observar minha dúvida se levava ou não uma das peças expostas sob coberta de pindoba, chegou a mim e falou com um ar de tristeza: ”leve, doutor. Não há mais pequizeiro nesta região. A soja derrubou todos, acabou-se tudo. Estes talvez sejam os últimos pilões”.


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Inclusão: 21/05/2006