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Publicada em: 4 de abril de 2006
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BENEDITO BUZAR

Em Itapecuru, as festas carnavalescas, promovidas na terça-feira gorda, não varavam a madrugada e nem terminavam, como nos dias correntes, em pleno dia de quarta-feira.

A tradição mandava começá-los por volta das 8:00 horas da noite, vale dizer que, a partir da meia-noite, a orquestra, sob o comando de Mundico Cardoso, já executava os primeiros acordes para o encerramento do baile.

Tudo isso para que os foliões itapecuruenses, sobretudo os adultos, desfrutassem de algumas horas de descanso, já que, às 5:00 horas da matina, acordariam com o badalar dos sinos da igreja-matriz, manipulados pelos compenetrados sacristãos Clóves Mendes e Dazi Costa, convocando-os para a Missa de Cinzas, em que os cristãos purificariam a alma e pediriam perdão a Deus pelos excessos cometidos no reinado de Momo.

Quando o relógio marcava 6:00 horas, o vigário da época( padre Alfredo Bacelar, Alteredo Soeiro ou José Albino Campos) deixava a sacristia devidamente paramentado para ministrar a cerimônia litúrgica, que proclamava o inicio da Semana Santa.

Antes, porém, o padre olhava para a nave da igreja. Se comprovasse a presença em massa dos paroquianos, o sermão seria brando. Caso contrário, a espinafração se fazia impiedosa.

Ao final da celebração, os fiéis(os contritos e os arrependidos), não deixavam a igreja sem levar na testa a marca do sinal da cruz, feita de cinzas.Era o prenúncio da chegada da quaresma, em que os católicos se preparavam para acompanhar e sentir em toda a plenitude a Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, um ritual cristão que só acabaria no Domingo de Páscoa.

Quaresma significa quarenta dias, tempo intenso para a prática dos ofícios litúrgicos - missas, rezas,ladainhas, vias-sacras, adorações e vigílias, alternadamente ministrados pelo vigário da paróquia, com a ajuda perseverante das corporações religiosas - as Filhas de Maria e os Vicentinos, que se revezavam na assistência espiritual à comunidade e na montagem do cenário em que a igreja cobria literalmente as imagens dos santos de um tecido roxo, símbolo da dor e do sofrimento do Cristo.

CULTOS E OFÍCIOS RELIGIOSOS

De acordo com o calendário da quaresma, após a Missa de Cinzas, vinha o Domingo de Ramos, cuja celebração alcançava invulgar interesse pela mensagem que trazia no seu bojo.

A Missa de Ramos carregava um simbolismo histórico e destinava-se a comemorar a triunfal entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, como Rei dos Judeus. Por isso a exigência de uma celebração especial. Cantada e rezada em latim, contava com a participação da banda de música e de um coral misto, não muito afinado, mas fazia um esforço ingente para agradar.

Ao final da cerimônia religiosa, cada católico se dirigia para o altar-mor, onde recebia das mãos dos Vicentinos e das Filhas de Maria, pequenos ramos de palmeira, levados para as casas residenciais, colocadas em lugar adequado e guardados com o devido carinho. Quando os fiéis deixavam a matriz de Nossa Senhora das Dores, o pensamento deles já se voltava para os próximos cultos da Semana Santa, configurados na saga vivida por Cristo e baseada na trilogia da Paixão, Morte e Ressurreição.

Para que essa liturgia fosse realizada com maior devoção e fervor, os católicos itapecuruenses cumpririam certas recomendações, ditadas pelos cânones do cristianismo, consolidadas pela tradição e transmitidas ao longo do tempo, algumas das quais exigiam sacrifícios materiais e espirituais, tais como: não consumir carnes vermelhas, só frangos e peixes; não ingerir bebidas alcoólicas; não participar de festividades ou de eventos que fugissem do espírito religioso; o estabelecimento do império do silêncio; evitar roupas extravagantes ou excessivamente coloridas, priorizando-se a cor negra; praticar o jejum na Sexta-Feira da Paixão, ou seja evitar qualquer tipo de alimentação. Sem esquecer também das penitências, penas impostas para remissão dos pecados. Se algum padre fosse pedir esses sacrifícios, nos dias de hoje, certamente seria chamado de doido.

Por falar em alimentação, não posso deixar de abordar um assunto pertinente a um peixe bastante consumido na Semana Santa: o bacalhau. Desde aquela época, o produto vinha do exterior e marcava presença na mesa de grande parte da população itapecuruense. Na loja comercial de meus avós( Rafisa e João Buzar) e similares, o bacalhau importado podia ser fartamente encontrado e vendido a preço accessível. A disponibilidade do bacalhau era tão marcante, que levava o meu pai a presenteá-lo aos amigos, especialmente os menos afortunados. Por isso, uma pergunta se faz necessária: por que, atualmente, com as facilidades do mundo globalizado,o bacalhau é um alimento proibitivo ao consumo popular? Ainda não obtive resposta convincente.

Com respeito aos atos litúrgicos realizados no interior da Casa de Deus, alguns ocorriam durante o dia, outros ao longo da noite. Missas, rezas, ladainhas, vias-sacras, adorações e vigílias, faziam parte da liturgia quotidiana. Havia, contudo, uma cerimônia que se destacava pelo significado emblemático: o Lava-Pés, na Quinta-Feira Santa, em que o sacerdote lavava e beijava os pés de doze jovens, que, de vestimentas brancas, uma espécie de chambre, representavam os apóstolos. A comunidade gostava de assistir aquele espetáculo, cujos protagonistas eram adolescentes.

Para mim, o Lava-Pés revestia-se de singularidade especial e até hoje não consigo esquecê-lo. Eu, Raimundinho, meu irmão, e colegas de geração, Nonato Cassas, Wady Fiquene Filho, José Raimundo Cardoso e Antônio Silveira, éramos, enquanto adolescentes, sempre convocados para figurar no espetáculo, vivido sob forte dose de emoção.

O catolicismo, contudo, reservava para a Sexta-Feira da Paixão o dia mais comovente da Semana Santa. A tristeza invadia a cidade e contaminava a todos, católicos ou não. Pairava no ar o sentimento da melancolia e da fraternidade cristã. O ambiente tétrico impunha-se em toda plenitude e conduzia à reflexão em torno do martírio de Cristo.

A cena culminante desse dia ocorria por volta das 5:00 horas da tarde, quando a multidão aglomerava-se dentro e fora da igreja, para participar da procissão do Senhor morto, que trafegava pelas principais ruas de Itapecuru, sob os olhares atentos e contemplativos da população. De vez em quando a procissão parava. Rompia-se o silêncio e os olhos e os ouvidos voltavam-se para duas figuras humanas. Uma masculina e outra feminina.

A masculina era o sacristão que conduzia à mão uma engenhoca chamada matraca, que substituía o sino e produzia um som suave e adequado ao ritual. Quando a matraca deixava de funcionar, aflorava a figura feminina da Verônica, representada e interpretada por moças da sociedade itapecuruense, dentre as quais Petinha Buzar, depois as irmãs Nazete, Darcy e Socorro Fonseca, e, por último, Idalina Cardoso.

Rezava o ritual que a Verônica surgiria placidamente e ficaria em posição de destaque, para que todos pudessem vê-la e ouvi-la. Esta cena de teatro a céu aberto, repetida diversas vezes, em pontos estratégicos da cidade, causava emoção, principalmente porque ela cantava músicas sacras e mostrava um manto com a imagem de Cristo. Nesse instante, o silêncio dava lugar às palmas.

Acabada a encenação bíblica, a procissão voltava ao seu curso normal e os fiéis entoavam cânticos religiosos, apropriados para a ocasião, sempre acompanhados da banda de música, que se esforçava para o som dos instrumentos de sopro e de corda não prejudicasse o ritual sagrado.

Cumprido o roteiro, a procissão de Senhor morto ingressava novamente na igreja, onde o povo se aglomerava para vê-Lo no caixão fúnebre, diante do qual rezava e fazia reflexões sobre o padecimento do filho de Deus.

ALELUIA E PÁSCOA

Para os católicos apostólicos romanos, a Semana Santa não acabava com a procissão do Senhor morto. No sábado e domingo,seguiam-se outras cerimônias, mas promovidas de forma diferente e sob o império da descontração.

O Sábado da Aleluia anunciava o tempo da Páscoa, em que a tristeza cedia lugar à alegria. Além das comemorações alusivas à Ressurreição do Salvador, vinham à tona manifestações de vingança contra aquele que traíra Cristo.

Chamava-se Judas, também uma figura bíblica, mas estigmatizado pelo seu comportamento indigno. Nem bem o dia amanhecia, em diversos pontos da cidade, os Judas da vida já podiam ser vistos sob a forma de bonecos, feitos à imagem do apóstolo traidor ou de pessoas que caiam na antipatia do povo.

Apareciam pendurados em postes, alguns bem arrumados, outros desengonçados e mal confeccionados. Todos, contudo, alvos da ira popular que ansiosamente aguardava o momento da malhação ou da queimação.

Via de regra, os bonecos, travestidos de Judas, eram produzidos por Cabocal, o homem dos sete instrumentos, porque sabia fazer tudo, ou pelo fogueteiro Casemiro(meu compadre) e fixados nas áreas mais movimentadas da cidade, preferencialmente na Praça da Cruz, onde ficavam expostos à curiosidade das crianças, as mais interessadas em destruí-los.

O espetáculo do massacre era assistido e aplaudido pela população, ao som da banda musical e de intenso foguetório. Dentro dos bonecos, haja paciência, para encontrar bombas, biscoitos, balas(doces) e moedas, que faziam a festa da garotada.

Antes, porém, da anunciada morte do Judas, as atenções se voltavam para o testamento, por meio do qual o traidor deixava para autoridades e pessoas influentes da cidade, heranças benditas ou malditas. Escritos com pitadas de humor e de ironia, causavam hilaridade, não deixavam também de provocar insatisfações, principalmente para quem não estava acostumado com aquele tipo de brincadeira. Os testamentos provinham da inspiração e da inteligência de Ozanam Coelho, João Silveira, Nonato Ferraz, Vavá Araújo, Antônio Olívio Rodrigues e Moacir Lima(Gatão), mas orientados por Raimundo Honório, um dos maiores gozadores da cidade, encarregado de providenciar os detalhes do evento.

O encerramento da Semana Santa ocorria com a celebração da Ressurreição. Com o retorno de Cristo à vida, a igreja se engalanava para receber os itapecuruenses, que com fé e devoção, participavam da Missa da Páscoa, toda ela ministrada com a pompa que merecia, daí porque rezada e cantada em língua latina, sem que o povo a entendesse.

Por isso, estava cheio de razão o magarefe Do Carmo, quando o Vaticano mudou a celebração da missa em latim para a língua pátria. Do alto de sua sabedoria, disse ele em alto e bom som: “Os mistérios de Deus não são para ser entendidos, mas cumpridos.”


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Inclusão: 04/04/2006