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Publicada em: 30 de março de 2006 | Ajustar Fonte: | A | A | A |

“Samba mesmo é no passo curto, é drible de corpo, é ‘no faz que vai, mas não vai’, é no passo largo cheio de ginga, é no balançar dos braços, é no girar constante da cabeça, mostrando um sorriso contagiante, uma combinação improvisada de movimentos que ninguém do mundo consegue fazer igual ao brasileiro”.
No ano de 2004 o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, apresentou à UNESCO o pedido de tombamento do gênero “Samba”, sob o título de “Patrimônio Cultural da Humanidade”. O Samba (bem imaterial), assim como a “Festa do Círio de Nazaré”, de Belém do Pará, o Boi-de-Reis de Natal (Rio Grande do Norte) fazem parte das 13 manifestações artísticas, religiosas e gastronômicas do Brasil que disputam no IPHAN receber a consagração nacional.
Em 25 de novembro de 2005 o pedido do ministro Gilberto Gil foi aceito e o samba-de-roda do Recôncavo Baiano foi proclamado pela Unesco “Patrimônio da Humanidade” na categoria de “Expressões orais e imateriais”.
O próximo passo, segundo o ministro será a capoeira brasileira.
Em 2006, o IPHAN começou a inventariar outros patrimônios imateriais do Brasil afora, entre eles o samba-carioca, o samba-rural paulista, o tambor-de-criola do Maranhão e o samba-coco de Pernambuco.
HISTÓRIA - No Rio de Janeiro a partir de 1850, mais especificamente nas imediações do Morro da Conceição, Pedra do Sal, Praça Mauá, Praça XI, Cidade Nova, Saúde e Zona Portuária, foi crescendo a população de negros e mestiços oriundos de várias partes do Brasil, principalmente da Bahia, bem como de ex-soldados da Guerra de Canudos. Estes últimos viriam a formar uma comunidade que eles próprios denominaram de “Favela” - termo que posteriormente viria a ser usado como sinônimo de construções irregulares das classes menos favorecidas.
Um dos principais líderes desse tipo de comunidade pobre foi o músico e dançarino Hilário Jovino Ferreira (1855/1933), responsável pela fundação de vários blocos de afoxés e ranchos carnavalescos. Muitas baianas descendentes de escravos alojaram-se nestes bairros, sendo conhecidas como as Tias Baianas. Inconteste a contribuição das Tias do Samba, como eram conhecidas no final do século 19, para a sedimentação da cultura negra, principalmente com relação ao candomblé e ao samba (amaxixado) desta época.
Tia Ciata ou Aciata - Hilária Batista de Almeida - (avó do compositor Bucy Moreira). Aciata, Ciata ou mesmo com a grafia Asseata, foi uma das responsáveis pela sedimentação do samba-carioca. Diz a lenda que um samba para alcançar sucesso teria que passar pela casa de Tia Ciata e ser aprovado nas rodas de samba das festas, que chegavam a durar dias.
Várias composições eram criadas e cantadas em improvisos, caso do samba “Pelo telefone”, que viria a ganhar a assinatura de Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos - 1890/1974) e Mauro de Almeida (jornalista conhecido como Peru dos Pés Frios - 1882/1956), samba para o qual também havia outras tantas versões. Este samba-maxixe é considerado o primeiro a ser gravado, ainda no ano de 1917.
Outras tias também foram importantes: Tia Amélia (Amélia Silvana de Araújo - mãe de Donga), Tia Veridiana (mãe de Chico da Baiana), Tia Bebiana, Tia Rosa Olé, Tia Sadata, Tia Mônica (mãe de Pendengo e Carmem Xibuca) e Tia Prisciliana (baiana da cidade de Santo Amaro da Purificação e mãe de João da Baiana).
Possivelmente o termo “Samba” é uma corruptela de “Semba” (umbigada), palavra de origem africana, provavelmente do Congo ou Angola, donde vieram a maior parte dos escravos para o Brasil. Uma das grafias mais antigas do termo “Samba” foi publicada por Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, em fevereiro de 1838 na revista pernambucana “Carapuceiro”, não se referindo ao gênero musical, mas sim a um tipo de folguedo popular de negros da época.
Segundo o pesquisador Hiram Araújo, na Bahia, ao longo dos séculos, as festas de danças dos negros escravos eram chamadas de “Samba”. Com o passar dos anos, a dança “Samba”, sempre conduzida por diversos tipos de batuques, assumiu características próprias em cada estado, não só pela diversidade das tribos de escravos, como pela peculariedade da região em que foram assentados.
Entre os tipos de danças populares mais conhecidas, destacamos Samba-lenço, Samba-rural, Tiririca, Miudinho e Jongo (São Paulo); Tambor-de-crioula ou Ponga (Maranhão); Samba-corrido, Samba-de-roda, Bate-baú, Samba-de-Chave e Samba-de-barravento (Bahia), Bambelô (Rio Grande do Norte), Coco (Ceará), Trocada, Coco-de-parelha, Samba de coco e Coco-travado (Pernambuco) e Partido-alto, Miudinho, Jongo e Caxambu (Rio de Janeiro).
Quanto ao vocábulo “samba”, existem várias versões de seu nascedouro. Uma delas diz ser originário do árabe, mais precisamente mouro, quando da invasão desse povo à Península Ibérica no século VIII, sendo o termo original “Zambra” ou “Zamba”. Há quem diga que é originário de um dos muitos dialetos africanos, possivelmente do Quimbundo: “Sam” = dar, “Ba” = receber, ou ainda “Ba” = coisa que cai.
COLABORAÇÃO - Em 1927 surge a primeira das escolas de samba, a Deixa Falar, no bairro do Estácio de Sá, vizinho ao afamado quarteirão boêmio carioca da Lapa. Inicialmente era um Rancho Carnavalesco, posteriormente Bloco Carnavalesco e por fim, Escola de Samba, tendo como fundadores alguns compositores do bairro do Estácio, entre eles Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (Bide), Armando Marçal e Rubem Barcelos, de uma turma também integrada por Mano Elói, Nilton Bastos, Aurélio, Baiaco, Brancura e Mano Edgar.
A colaboração desses compositores fizeram com que o samba fosse devidamente ritmado de forma que pudesse ser acompanhado no desfile, distanciando assim do andamento amaxixado de outros compositores como Sinhô. Também era conhecido por esta época um tipo de samba denominado como “Batida de caboclo”, isto porque não tinha marcação e sendo assim, era quase impossível, dançar e andar ao mesmo tempo com um tipo de samba deste, ou mesmo, com o tipo de samba amaxixado.
No início da década de 1960 foi criado o “Movimento de Revitalização do Samba de Raiz”, promovido pelo Centro de Cultura Popular (CPC) em parceria com a UNE. Foi o tempo do aparecimento do Zicartola, dos espetáculos de samba no Teatro de Arena e no Teatro Santa Rosa e de musicais como “Rosa de Ouro”. Foi a época do aparecimento de grupos como “Os Cincos Crioulos”, “A Voz do Morro”, “Mensageiros do Samba”, “Os Cinco Só”. Tempo também do aparecimento do chamado “Samba-empolgação” dos blocos carnavalescos “Bafo da Onça” , “Cacique de Ramos” e “Bhoêmios de Irajá”.
Na década seguinte surgiram os termos “Sambão-jóia”, “Sambolero” e “ABC do Samba”.
Cantores e compositores como Luiz Ayrão, Benito Di Paula, Jorginho do Império, Antonio Carlos & Jocafi, e ainda, Beth Carvalho recolocaram o samba nas principais emissoras de rádio e TV do país, sendo responsáveis por vendas expressivas do gênero na década de 1970. Por essa mesma época, surgiu também o termo “ABC do samba”, relacionado às cantoras Alcione, Beth Carvalho e Clara Nunes, quando elas conseguiram bater recordes de venda. Clara Nunes chegou à marca de 300 mil cópias seu disco homônimo de 1973.
Em São Paulo surgiu o cantor e compositor Geraldo Filme, um dos sambistas da Barra Funda, reduto do samba paulistano, freqüentador também das rodas de “Tiririca” - tipo de disputa com pernadas ao ritmo de samba - no Largo da Banana. Geraldo Filme, em parceria com Plínio Marcos, montou os espetáculos “Balbina de Yansã” e “Pagodeiros da Paulicéia”.
Outros sambistas, também importantes, são Germano Mathias, Osvaldinho da Cuíca, Thobias da Vai Vai, Aldo Bueno e Adoniran Barbosa, este último já devidamente reconhecido nacionalmente por esta época, mas regravado e relembrado com mais freqüência nesta década. em São Paulo, Benito Di Paulo foi “classificado” como “sambolero”, usando freqüentemente em suas apresentações piano, timba e chimbau.
Em Salvador os compositores Riachão, Panela, Batatinha, Garrafão e Goiabinha, foram seguidos por Tião Motorista, Chocolate, Nélson Balalô, J. Luna, Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Walmir Lima, Roque Ferreira, Walter Queirós, Paulinho Boca de Cantor e Nélson Rufino, que mantiveram a tradição dos sambas-de-roda e samba-coco, quase todos despontados para um maior reconhecimento a partir da década de 1970.
Ainda na década de 1930, Paulo da Portela e sambistas de Madureira e Oswaldo Cruz, organizavam nos vagões de trens reuniões para discutir o carnaval, sempre com muito samba. No ano de 1995, outro compositor, Marquinhos de Oswaldo Cruz, reorganizou o “Pagode do Trem”, fazendo com que o evento entrasse para o calendário turístico da cidade do Rio de Janeiro, sendo apresentado no dia 2 de dezembro, “Dia Nacional do Samba”.
“Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar”, refrão imortalizado na voz da maranhense Alcione. |
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