Vinte de setembro de 2005, são lembrados os 163 anos do enforcamento de Cosme Bento das Chagas (Negro Cosme). Acontecimento que ficou para a história de Itapecuru-Mirim, do Maranhão e do Brasil.
Negro Cosme, assim foi intitulado pelo Tenente-Coronel Luís Alves de Lima e Silva, ministro de guerra no período da Balaiada, pelo ódio que tinha do chefe quilombola, por não poder prendê-lo, destruí-lo e acabar com seus adeptos (aquilombados). Quando se referia a Cosme Bento das Chagas, só o chamava de infame, facínora, feiticeiro, bandido etc e que era cheio de truques e manias e por essa razão passou a ter ódio mortal do grande líder da Balaiada.
Esse movimento teve início no Maranhão em 1838, quando os liberais começaram a revolucionar, através de um jornal que recebeu o nome de Bem-ti-vis. Nele propagava-se as idéias de liberalismo reacionário, nativismo intransigente, expulsão dos portugueses e o confisco de seus bens.
Tudo já estava preparado por grupos políticos e fazendeiros liberais (Bem-ti-vis) cabanos (conservadores) para explosão dessa grande guerra, justamente quando Raimundo Gomes, apelidado de “cara preta” invade a cadeia da Vila da Manga, município de Vargem Grande, hoje cidade de Nina Rodrigues, para soltar vários vaqueiros que tinham sido levados presos da fazenda, onde ele era uma espécie de líder e o proprietário era Bem-ti-vi.
O motivo da prisão foi o fato de não terem aceitado fazer parte do “recrutamento”. Por essa razão cara preta e outros vaqueiros, sabendo que aquilo era mais uma das vinganças dos políticos e fazendeiros cabanos, se organizaram, pois na região as tropas militares obrigavam vaqueiros, lavradores e até os próprios filhos de fazendeiros a entrar para o recrutamento. Muitos fazendeiros de melhor situação financeira ofereciam vários escravos em troca dos filhos para livra-los dos combates, das rebeliões populares e de andar em várias províncias e também porque não eram remunerados.
Começa a perseguição ao grupo. Os militares se alojaram na residência do sr. Manoel dos Anjos Ferreira, lavrador e confeccionador de “balaios”, sendo apelidado de o “balaio”. Lá tomaram de conta de sua casa. Comeram, beberam, dormiram e ainda estupraram as duas filhas do sr. Manoel. Ele nada pôde fazer, pois ficou a mercê da mira das armas da Milícia. Depois deste episódio, decidiu vingar a honra das filhas. Formou grande tropa de vaqueiros, lavradores, pequenos comerciantes, artesãos e outros profissionais e saíram em perseguição aos militares. Juntaram-se a Raimundo Gomes e Negro Cosme e os revoltosos aproveitaram esse período para explodir a guerra, que depois receberia o nome de Balaiada, em homenagem a Manoel dos Anjos Ferreira, o balaio.
Foi uma luta contra a miséria, a intolerância da elite, contra os proprietários de terra, abuso das autoridades. Só Cosme Bento das Chagas, chefe de vários quilombos, depois de ser abandonado pelas lideranças políticas e outros companheiros, continuou a luta. Houve grande adesão e simpatia de outros grupos e da “massa” oprimida. A luta passa a ser do povão e Negro Cosme liderava 3 mil negros na Balaiada. O maior e mais importante quilombo era o de Lagoa Amarela, no período município de Vargem Grande, hoje município de Chapadinha.
Negro Cosme não deixava seu povo passar fome. Assaltavam e invadiam fazendas, comércios nas cidades, atacavam viajantes para que nada faltasse aos seus companheiros (aquilombados). Antes de se estabelecer em Lagoa Grande, houve indícios da presença deles no quilombo Urubú, em Codó.
Cosme esteve preso em São Luís de 1830 a 1833, condenado a forca, acusado da morte do dono da fazenda onde vivia. Conseguiu escapar, juntando-se a outros negros fugitivos. No quilombo formado por ele até escola fundou para ensinar as crianças e os adultos a ler e escrever. Apesar das crueldades e maldades que eram feitas por ele e seu bando, também tinha um lado bom. Era otimista e sonhador, pois toda sua luta era por uma República sem escravidão. Ele sonhava com a liberdade e a igualdade. Por isso invadiu a cidade de Caxias, tomando de quem tinha muito e dividindo entre os que não tinham. Muitos perguntavam de onde ele teria vindo. Conforme pesquisa Cosme era livre veio de Sobral, Ceará.
Negro Cosme foi perseguido durante a guerra da Balaiada. Perdeu muito dos seus companheiros. Matou muitos inimigos e pessoas boas. Se intitulava D. Cosme, Tutor, Imperador e Defensor da Liberdade Bem-ti-vis. Deu e vendeu muitos títulos aos seus companheiros de tenente, major, coronel, barão e outros. Nas fazendas que atacava dava carta de alforria aos escravos e afinal de contas não foi por causa dele que Luís Alves de Lima e Silva recebeu o título de Barão e Duque de Caxias?
Essa guerra durou de 1838 a 1841 e Luís Alves de Lima e Silva foi nomeado presidente e comandante da Província do Maranhão, chegando aqui em 1840 para sufocar a Balaiada, trazendo consigo 8 mil homens e a Cadeia Pública de Itapecuru serviu de quartel para o general Caxias. Mas apesar dos seus ataques, astúcias e emboscadas, para aniquilar o Negro Cosme, ele passou mais de um ano para derrotá-lo. O último combate só aconteceu porque o Duque de Caxias ofereceu anistia a outros bandos organizados, que se juntassem a ele para combater os quilombolas.
Cosme e seus companheiros já enfraquecidos pela fome, sede, cansaço e sem munição, foram derrotados, havendo grande chacina com milhares de combatentes mortos, aldeias inteiras incendiadas. Entre essas mortes cruéis não escaparam crianças, velhos e mulheres. Por mais que pedissem socorro e perdão não foram poupadas da cruel matança.
O último combate entre o Duque de Caxias e Negro Cosme aconteceu no Calabouço – distrito do Mearim, no dia 28 de fevereiro de 1841, quando o líder da Balaiada não resistindo a tantos ataques se entrega. Foi preso em Itapecuru e logo depois levado para São Luís. Era o fim da Balaiada.
No dia 28 de fevereiro de 1842, Luís Alves de Lima e Silva, comunica ao Ministro e Secretário d’Estado da Guerra a prisão de Negro Cosme e pedia que ele comunicasse a sua Majestade, o Imperador.
No dia 8 de Agosto o Ministro de Justiça comunica ao Presidente da Província do Maranhão da sentença do Jury da Villa do Itapecuru-Mirim, pela qual foi condenado a pena de morte o réu Cosme Bento das Chagas.
O Presidente da Província do Maranhão no dia 9 de setembro de 1842 comunica ao juiz municipal de Itapecuru Francisco de Serra Carneiro que o réu partiria de São Luís, domingo, dia 11 do corrente, às 9 horas da manhã, na canoa Santa Cruz. Solicito que todas as providências sejam tomadas para a execução e que os socorros de religião sejam prestados pelo pároco ou outro eclesiástico. No dia 20 de setembro de 1842, o grande líder da Balaiada Cosme Bento das Chagas, o Negro Cosme, foi enforcado em frente a Cadeia Pública de Itapecuru, hoje Casa da Cultura Profº João Silveira.
Esse é um pequeno histórico sobre a Balaiada e a importância do Negro Cosme, que tornou-se líder da mesma. A história é bem mais ampla e precisa que nós professores e alunos comecemos a nos preocupar em estudá-la, pesquisá-la e questioná-la.