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Fonte: Edição 100 - Julho de 2005
Publicada em: 2 de agosto de 2005
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A MALOGRADA TENTATIVA DE UMA EMPRESA PAULISTA NO INTERIOR DO MARANHÃO

Quem se der ao trabalho de pesquisar o babaçu, com certeza, vai encontrar, sobretudo no curso da primeira metade do século passado, estudos, relatórios, documentos e trabalhos abundantes acerca desse produto nativo e as numerosas tentativas e tratativas empreendidas por órgãos públicos e entidades privadas, destinadas a fazerem dele uma alavanca vital e importante para o progresso do Maranhão.

Como se fosse uma verdadeira galinha dos ovos de ouro, o aproveitamento integral do babaçu, gerou dentro e fora do Maranhão, expectativas alvissareiras, quanto à sua contribuição para o desenvolvimento industrial e para o incremento da receita estadual, na fase que vai do nascimento do regime republicano até os anos sessenta do século XX, quando se deu o ocaso da indústria oleaginosa.

Nesse particular, é indisfarçável negar ou ofuscar, independentemente de qualquer juízo político que se possa fazer sobre o interventor Paulo Ramos, a incansável luta por ele desencadeada, desde que o assumiu o Poder Executivo do Estado, em 1936, até a sua renúncia, em 1945, para convencer as autoridades federais e estimular a iniciativa privada, especialmente a mais capitalizada, a darem ao babaçu, como fonte de recurso natural, um tratamento merecido, no pressuposto de que o seu aproveitamento industrial seria um investimento de vantajosa rentabilidade.

Como resultado desse discurso ufanista, proferido em pleno transcurso da II Guerra Mundial, vieram de São Paulo as primeiras manifestações interessadas no aproveitamento integral do coco de babaçu, numa prova eloqüente de que as palavras do interventor não se perderam no espaço, pois o eco delas repercutiu no maior centro capitalista do país.

Entre os que se impressionaram com a loquacidade do interventor em torno do assunto, destacaram-se os engenheiros paulistas Oscar de Paula Bernardes e Adelino de Almeida Prado, que mandaram para o Maranhão técnicos e especialistas, com vistas à promoção de estudos de viabilidade econômica, assim como de avaliação das condições oferecidas pelo Estado para a montagem de um empreendimento voltado para a industrialização do produto.

Nos contatos e entendimentos mantidos em São Luís, os técnicos paulistas perceberam que não era fantasia o que apregoava o interventor, pois a 4 de fevereiro de 1942 assinou o decreto-lei nº 573, que autorizava o Governo a permitir a utilização, a título gratuito, dos frutos dos babaçuais pertencentes ao Estado, a empresas ou firmas nacionais, que se comprometessem em instalar, no território maranhense, usinas para industrialização integral do babaçu, bem como,entre outros incentivos, “permitia não só a industrialização da amêndoa como todas as partes integrantes do coco, delas extraindo os produtos e sub-produtos, enquanto conservadas no seu estado natural” e “a instalar e por em funcionamento a primeira usina definitiva dentro do prazo de 24 meses, contados da lavratura do contrato, ou dentro de 18 meses, em se tratando de usina experimental”.

Comprovada a existência de condições favoráveis à aplicação de investimentos para o aproveitamento do coco de babaçu, os engenheiros paulistas organizaram a empresa Indústrias Babaçu Ltda, com um capital de 3.800.000 cruzeiros(moeda da época), da qual entraram como sócios as firmas Bernardes & Cia, Almeida Prado & Cia e a Sociedade Paulista de Exportação Ltda.

Organizada a firma, imediatamente cuidaram de acionar uma providência indispensável para a montagem da fábrica: a escolha de um local apropriado para esse fim.

Depois de algumas viagens ao interior do Estado, descobriram que o povoado Kelru, encravado no município de Itapecuru, reunia alguns requisitos favoráveis ao investimento, destacando-se os vastos babaçuais que dominavam a área, a proximidade com São Luís (distante pouco mais de cem quilômetros) e servido por transporte ferroviário e fluvial.

Ultimadas essas providências, outras, não menos relevantes, foram também agilizadas, dentre as quais a compra, em Kelru, de uma extensa área de terra, então propriedade de Joaquim Ferreira Lima, e a vinda de São Paulo de engenheiros, agrônomos, médicos, mestres de obras, desenhistas, pessoal administrativo e operários qualificados, que tomaram o destino daquele povoado, onde priorizaram a imediata construção de escritórios, estradas, ruas, casas e prédios da usina.

Para a consolidação dessa formidável infra-estrutura, contaram com a imprescindível participação dos moradores do lugar, os quais receberam, além da assistência educacional e médico-sanitária, capacitação para as tarefas exigidas para a implantação do projeto.

Enquanto em São Paulo mobilizavam-se os recursos materiais, técnicos e humanos, paralelamencomete, em São Luís, uma medida importante requeria também urgência, pois sem ela, a fábrica não passaria de uma ficção: a assinatura do contrato entre o Governo do Estado e a firma Indústrias Babaçu Ltda.

Com tal finalidade, em 19 de junho de 1942, o Secretario Geral do Estado, José Albuquerque Alencar, representando o interventor, e o engenheiro Adelino de Almeida Prado, assinaram um contrato em que o Governo, com base no decreto-lei nº 573, fazia a concessão e utilização dos babaçuais pertencentes ao Estado, e a empresa se comprometia, entre outras cláusulas, a instalar no prazo de dezoito meses uma usina de caráter experimental, para a industrialização de cem toneladas diárias de coco, para obtenção do óleo e da torta, fabricados com a amêndoa, a extração, inicialmente, do coque e do alcatrão, e, findo o prazo de doze meses no máximo do funcionamento da usina, a do ácido pirolenhoso e a de gazes inflamáveis.

Cumpridas as exigências técnicas, legais e burocráticas, sem as quais não seriam materializadas as obras e os serviços de implantação da“cidade industrial”, no interior do Maranhão, edificaram-se os prédios onde seriam instalados os equipamentos e laboratórios da fábrica, numa abrangência de 3.500 metros quadrados, e a zona residencial, com uma área de 1.800 metros quadrados, para moradia dos gerentes, técnicos e trabalhadores, em torno de quatrocentas pessoas, dispondo de luz elétrica, água encanada e serviço de esgoto.

Tudo isso construído num local onde a predominância de um denso matagal era, até bem pouco tempo, incontestavelmente expressivo.

Malgrado às dificuldades de transporte dos equipamentos, a maioria importada, provocadas, de um lado, pela guerra submarina, e, de outro lado, pela deficiência da Estrada de Ferro São Luis-Teresina, dois anos após a assinatura do contrato entre o Governo do Estado e as Indústrias Babaçu Ltda, no dia 07 de agosto de 1944, com as presenças do interventor Paulo Ramos, que se fazia acompanhar de numerosa comitiva composta de autoridades públicas e privadas, dos sócios e diretores da empresa paulista e do representante do ministro da Agricultura, inauguravam-se em Kelru as instalações da usina, ainda que em caráter experimental, com capacidade de extrair o óleo da amêndoa e de aproveitar eficientemente todos os sub-produtos do babaçu.

O avanço do empreendimento industrial, a despeito dos problemas decorrentes do conflito mundial, era de tal modo expressivo, que além de provocar lufadas de otimismo no setor empresarial maranhense, que passou a vislumbrar uma nova era de progresso e de prosperidade, em função do processo tecnológico usado pelas Indústrias Babaçu Ltda, suscitou também interesse e curiosidade de autoridades públicas de outros estados, a exemplo do interventor do Pará, Magalhães Barata, que fez uma viagem a Kelru, com o objetivo específico de ver o funcionamento da usina e como ela operava na obtenção de uma série de produtos extraídos do coco.

Àquela altura dos acontecimentos, ou seja, em fevereiro de 1945, a usina já produzia cerca de 20 toneladas diárias, mas a tendência era chegar à casa das 150 toneladas, resultado da exploração do amido, da farinha amilácea, da torta de amêndoa, do acetato de cálcio, do carvão ativo em pó e coque natural, do coque briquetado, do alcatrão, do pixe, do óleo e da farinha para alimentação humana e animal.


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Inclusão: 02/08/2005