O papel do jornalista sempre foi e sempre será fazer jornalismo, por mais incômodo que seja, por mais trabalho que dê, por dores de cabeça que cause, por ódios que desperte, por incompreensões que surjam. Para informar o maior número de pessoas possível, o jornalista precisa desmascarar a “farsa” para seus leitores, quando assim for exigido dele. Em outros casos deve se deter somente aos fatos, ouvindo os dois lados em questão, preservando fontes de informação, checando a informação com isenção, sem defender quem quer que seja em prejuízo de muitos. Ele, como intermediário da sociedade, como tão bem definiu o teórico Paul Lazarsfeld, representa a maioria, sua comunidade, sua sociedade, sua nação.
A conivência com pessoas ou grupos, nunca poderá torná-lo um jornalista, mas um seguidor de ordens. Um contexto que engloba àqueles jornalistas que se vendem por dinheiro, os que se vendem por informação e os simplesmente “inúteis”, pois são muito bem informados apenas para consumo próprio (é claro que não estou generalizando).
O jornalista é assim por querer ou existe uma imprensa que opta, de vez em quando ou quase sempre, por não ter qualquer compromisso com a ética e com o público que representa? Para termos ou sermos jornalistas legítimos, sérios, competentes e conscientes do seu papel, precisamos de uma imprensa livre, democrática em suas funções e apegada fortemente ao interesse sócio-político-econômico e cultural da nação, unificando os interesses de cada homem, de cada mulher, dos cidadãos. Aqueles desprotegidos e reprimidos historicamente, alienados e desprovidos de uma consciência crítica, que lhes dê a capacidade de entender e interpretar a situação adversa a que estão submetidos e a ação destruidora de seus algozes.
Pois bem, no Brasil, como na maioria dos países em desenvolvimento, a introdução de uma imprensa oficial não correspondeu à implantação automática da liberdade de pensamento. No decorrer do tempo, tanto a liberdade de pensamento, quanto a liberdade de imprensa, foram “maquiadas”, “camufladas” para servir a interesses escusos, resumidas em atitudes mesquinhas.
Os produtos desta imprensa, especialmente os jornais (desde os primeiros a serem editados no Brasil, através da Impressão Régia de D. João VI) vem penetrando no meio social como “porta-vozes da coletividade, informando e formando nas pessoas uma consciência crítica, baseado na credibilidade que dispõem”. Até que ponto formar opinião implica formar uma consciência crítica? Até que ponto a credibilidade dos jornais pode significar a consolidação de um processo claro de comunicação horizontal? Não sejamos ingênuos, muitas notícias só servem para vender jornal e a publicidade empregada já incide no teor informativo o poder da persuasão.
No plano do capitalismo, da comunicação vertical, dos meios de comunicação de massa, da indústria cultural, da imprensa atrelada ao Estado, somos meros receptores passivos. Espectadores de um sistema nocivo, cujas diretrizes antidemocráticas afetam diretamente nossas vidas, nosso comportamento, nossa maneira de pensar e agir.
Nicolai Palgunov disse um dia “a imprensa é um poderoso meio de influência das classes dominantes sobre as massas populares, um instrumento importantíssimo de propagação de conhecimentos políticos e científicos, um poderoso na luta política”. Em mãos erradas, a comunicação, a sua imprensa descaracterizada de sua função social e o mau jornalismo parido de suas entranhas, servem apenas de propagadores para a doutrina dominadora e massificadora do sistema.
A imprensa, por natureza, é formadora da opinião pública, isto é do conjunto de opiniões, juízos, conceitos, apreciações, pontos de vista que a respeito de indiferentes aspectos da vida do povo e do Estado, imperam nas variadas classes sociais. Justamente por isso é que se torna objeto de disputa por parte de governantes que pretendem utilizá- la em benefício de seus interesses políticos; por grupos econômicos desejosos de tê-la como aliada na luta por interesses mercantilistas; ou por partidos políticos interessados em impor sua ideologia.
Por outro lado, no plano da comunicação social, da horizontalidade do processo de comunicação, da democracia, dos princípios éticos, da moralidade, precisamos nos colocar de pé, corajosamente, em prol do interesse público, garantindo que todos, sem exceção, sejam agentes de sua própria transformação. O diálogo deve fluir naturalmente na comunidade, na sociedade, pois são muitas as questões a serem discutidas, resolvidas, sobretudo aquelas que envolvem o poder da imprensa, da comunicação, o quarto poder.
Os veículos de comunicação (os jornais, por exemplo) são instituições sociais. Quer dizer, são instituições criadas pela necessidade dos agrupamentos definidos de indivíduos obedientes às leis, costumes e tradições comuns. O relacionamento da imprensa com a sociedade precisa ter o caráter de representação, trabalhando pelo interesse comum a todos. É pelo interesse coletivo, onde todos possam usufruir dos mesmos conceitos, sendo capazes de proclamar interpretações sadias sobre os fatos do dia-adia, de forma a trazer benefícios para a sociedade em sua plenitude, é que a imprensa deve existir.
A liberdade de imprensa é um dos principais requisitos da democracia plena. A imprensa não pode estar submetida, direta ou indiretamente, ao poder do dinheiro. No verdadeiro regime democrático, da comunicação livre, ela torna-se uma importante aliada, indo ao encontro de seus reais objetivos e permanecendo como fundamento essencial da liberdade.
Daí se desenvolve o bom jornalismo, o que corresponde aos anseios da maioria, o que ajuda na educação das pessoas, elevando seu nível cultural, e o que resgata a informação de forma objetiva e imparcial. Só assim, a comunicação humana será justa e a imprensa finalmente abraçará sua legítima função social.
*Raimundo Castro é Jornalista e Editor do Jornal de Itapecuru