“... O país inteiro se acha ameaçado desde que os direitos de um só de seus cidadãos forem violados...”, palavras de Joaquim Gomes de Souza, matemático, médico e poliglota, considerado por muitos uma das mentes mais brilhantes do Séc. XIX. Em apenas trinta e cinco de sua existência, deixou uma obra invejável em vários campos da ciência e, sem dúvida, uma das maiores expressões políticas de sua época. Sim, expressão política, pois Gomes de Souza foi Deputado do Império durante três legislaturas e em sua obra uma infinidade de discursos proferidos na Câmara.
O registro dessas informações veio com a pesquisa do professor Cícero Monteiro de Souza do Curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Federal Rural de Pernambuco, publicadas no livro “Joaquim Gomes de Souza: discursos parlamentares de um matemático do Império”. O professor Cícero, que se dedica a pesquisar a história da matemática, estudando a vida e a obra de “Souzinha”, tem muitos artigos escritos sobre esse personagem histórico do Maranhão e do Brasil. E não só isso, deu aos conterrâneos de Gomes de Souza a oportunidade de conhecer este seu outro lado.
Os discursos parlamentares do grande matemático são a prova viva de sua seriedade e visão futura. Um homem que apesar de sua debilitada saúde possuía uma força extraordinária quando se tratava de defender os interesses da nação. Poucos são os que sabem que Joaquim Gomes de Souza foi eleito representante de sua província pelo Partido Liberal (na época existiam apenas dois partidos, o Liberal e o Conservador), em três legislaturas: na décima (1857-1860), na décima primeira (1861-1864) e na décima segunda (1864-1867). Os seus dois últimos mandatos foram interrompidos: o segundo com o fechamento da câmara em 1863 e o terceiro por seu falecimento em 1864.
Somente através dos discursos de Souzinha é que se descobrem detalhes importantíssimos de sua vida, da personalidade e da situação política, social e econômica por que passava o Brasil daquela época. Quando aos 28 anos de Idade, Joaquim Gomes de Souza entrou para a política brasileira, era um jovem que, apesar da sua pouca idade, tinha se aprofundado no conhecimento da política e na his- tória política dos mais importantes países da Europa, além de ser, pode-se dizer, um especialista em questões de Economia Política e Direito Constitucional. Entretanto, em relação aos fatos que estavam ocorrendo na Câmara dos Deputados e na política brasileira, estava totalmente alheio, apesar de logo depois vir a se inteirar destes problemas, mas nunca entender a ganância, o egoísmo, o individualismo com que agia a grande maioria dos políticos e, por isso, a política veio a ser sua grande decepção.
Gomes de Souza foi um incansável batalhador pela moralidade política e pelo uso correto do dinheiro público. Tivessem os políticos atuais conhecimento do discurso “Sociedade em Comandita”, pronunciado na sessão de 29 de Julho de 1857, talvez fossem mais cautelosos em suas propostas econômicas. Digno de menção também, foi o ocorrido na Câmara dos Deputados na sessão de 09 de Julho de 1861, quando fazia explanação sobre a “Fixação da Força Naval”, sua indignação foi tamanha que simplesmente abriu parênteses para pronunciar o seu “Boletim da Saúde Ministerial”que levou ao ridículo todo o Ministério do Governo, causando no mesmo dia a demissão do Ministro dos Negócios Estrangeiros e a queda do Gabinete Saraiva.
Seus dois últimos discursos serviram para denunciar a desastrosa administração do Sr. Major Francisco Primo de Souza Aguiar. Um político do Rio de Janeiro que, em apenas oito meses em que esteve na presidência da província do Maranhão, desfalcou-a de maneira inconcebível. Em sua defesa, logo no início do discurso, um apelo incisivo aos conterrâneos: “E a vós, compatriotas que vos achais fora deste recinto (Câmara dos Deputados) e não podeis ouvir os acentos de indignação com que vou narrar a opressão exercida sobre a minha infeliz província, a vós eu rogo que me leiam”. E no último discurso de Joaquim Gomes de Souza, quando falava do “Orçamento da Marinha, na sessão de 14 de Julho de 1862, utiliza-se de todos os seus conhecimentos de Astronomia, Física, Matemática, Geologia, Mineralogia, etc., para explicar as causas da obstrução do porto do Maranhão.
Souzinha nasceu em 15 de Fevereiro de 1829, na Fazenda Conceição, à margem esquerda do Rio Itapecuru, no município de Itapecuru- Mirim. Em 1836 muda-se para São Luís para morar no casarão situado à Rua do Sol, onde anos mais tarde os irmãos Aluízio e Artur Azevedo utilizaram o pequeno teatro da casa para as suas leituras e ensaios de seus trabalhos. Hoje, no mesmo local funciona o Museu Histórico e Artístico do Maranhão.
Foi no momento em que chegou a São Luís para dar início a sua escolaridade, é que Gomes de Souza começou a escrever para a posteridade a extensa biografia que possui.