José Santana Amorim, 63 anos, é natural de Viana, chegou a Itapecuru-Mirim em 13 de Maio de 1962. Nestes 43 anos nesta histórica cidade, continuou sua trajetória de sucesso e ao som do trombone, seu instrumento preferido, deu asas aos seus sonhos de grande instrumentista. Participando de orquestras e bandas famosas, sempre entre os mestres da música e na linha de frente das eternas composições, fez da profissão de músico a sua arte e a sua vida.
Entre os compositores de elite que mais gosta está Pixinguinha e Noel Rosa. Solando no trombone a música “Carinhoso”, se sente realizado e em casa. Já entre os trombonistas prefere Raul de Barros por sua história e o Tenente Randolfo por sua dedicação ao trombone, instrumento da paixão de José Santana.
Outra de suas fortes paixões é participar da bandinha “pau furado”, um grupo musical típico, que tem uma história marcante e engraçada. O “pau furado” vem da história de Pedro Maranhão, clarinetista (pessoa que toca o instrumento denominado clarinete). Pelo fato do instrumento ser feito de madeira e ser oco, muitos passaram a chamá-lo de “pau furado” e todas as vezes que Pedro Maranhão e seus companheiros se apresentavam pelo município a alegria era geral, pois a festa seria realizada ao som do “pau furado”. Essas bandinhas são muito comuns em Itapecuru.
No campo da composição de músicas diz que é uma espécie de co-autor e percebemos que o seu forte mesmo é executá-las com o talento primoroso de sempre. Com modéstia fala de sua fama e da humildade com que encara a música e os companheiros, bem como a preocupação com o futuro, tanto que encara o desafio de ensinar o que sabe às futuras gerações, tudo para que a tradição musical da histórica cidade de Itapecuru não se perca no tempo.
Sob as bênçãos de Santa Cecília, padroeira dos músicos, o iluminado José Santana instrui, toca, diverte e vive. Vive a música e o prazer que ela pode proporcionar. Ele sabe disso desde os doze anos de idade, quando se deu conta de que com a música foi “amor à primeira nota”.
Foi no espaço histórico da Casa da Cultura de Itapecuru, sede da Escola de Música Joaquim Araújo, que o músico José Santana recebeu a equipe do Jornal de Itapecuru para o bate-papo que segue.
JI - José Santana, o que representa a música na sua vida?
JS - A música faz parte da minha vida. Quando estou perto da música esqueço de tudo até dos meus problemas. A música é a minha vida, pois tudo o que já adquiri, relacionado a família, estudo, veio através da música. Ela, sem dúvida, representa muito para mim.
JI - O senhor estudou música?
JS - Estudei música com um dos melhores professores de Viana, senhor Luís Nunes Lima, primeiro- Tenente da Marinha do Brasil. Depois de ter estudado em Viana fui para São Luís. Cursei música na Escola Técnica durante três anos e de lá saí tocando em vários “jazz”. Participei de muitos deles, como os jazz Independente, Vianense, América, Iraquitã, entre outros, porque eu era um trombonista cobiçado. Quando eu não ia participar de alguma festa num jazz, era levado para tocar em qualquer outro lugar. Passei por muitos jazz e acabei em bandas. Minha última participação foi na Banda Tropical onde passei 14 anos. A partir daí escolhi Itapecuru para continuar a carreira de músico.
JI - Quando o senhor chegou aqui, Itapecuru já tinha músicos consagrados?
JS - Itapecuru foi um celeiro de músicos. A minha vinda para Itapecuru se deu quando recebi um convite de um colega, músico e sargento da Polícia, que me trouxe para Anajatuba para tocar em um festejo. Lá conheci durante o trabalho, o grande músico Mundico Cardoso, dono da mais afamada orquestra de Itapecuru. Nessa orquestra tocava o melhor trombonista da região. Quando este músico adoeceu, fui convidado para substituí- lo e passei a residir nesta cidade.Quando cheguei esta era a cidade dos músicos. Só tinha músico formado e famoso como Mundico Cardoso, Carlos Bezerra, Joaquim Araújo (patrono da Escola de Música de Itapecuru), Feliciano Gonçalves, Pedro Maranhão, José Araújo, Senhor DiCosta, Dico Nogueira e muitos outros. E aqui não tínhamos só um orquestra, eram várias e nos finais de semana ninguém parava. Entretanto quando se formava a Banda de Itapecuru todas as orquestras se resumiam em uma só, composta por célebres músicos. Era a coisa mais linda do mundo.
JI - José Santana, além do trombone o senhor já experimentou outros instrumentos?
JS - Sim. Lá na minha terra quando comecei a estudar música tínhamos que pegar a partitura de bateria. Por isso toquei tarol, bumbo e contra-baixo. Na banda de Viana, de Ozias Mendonça, eu já tocava segunda trompa e depois com o auxílio do renomado trombonista Tenente Randolfo, meu vizinho, professor e ídolo, passei a tomar gosto pelo trombone. Ainda hoje aos 63 anos, ao tocar lembrome da performance e Randolfo.
JI - Quem o senhor admira entre os grandes músicos brasileiros?
JS - Raul de Barros. Um dos maiores trombonistas da história da música brasileira. E a própria história dele é muito interessante. Raul de Barros, de origem humilde, um dia olhou um trombone numa vitrine de loja e desejando-o não pôde comprá-lo. Seus amigos sabendo disso resolveram fazer uma cota e compraram o instrumento e deram de presente a ele. Essa atitude marcou para sempre a vida dele. A vida de um instrumentista nato.
JI - Além de músico, o senhor se dedica a ensinar música?
JS - Sim, esta dedicação remonta a minha chegada a Itapecuru. Vendo o grande celeiro de músicos aqui existentes, resolvi que não iria deixar morrer aquela tradição, pois depois de um certo tempo já era visível o desinteresse dos jovens pela música. Daí veio toda a minha trajetória com a música, resultando no comando da Escola de Música do município, que leva o nome de um grande amigo: Joaquim Araújo. Percebi que Itapecuru não poderia deixar de ter músicos formados e há 12 anos trabalho com os jovens da Banda de Música. Por ela passaram excelentes professores como Carlos Martins e Daniel. Nesta escola fui zelador, professor, diretor, tudo para não vê-la acabada. Hoje ela tem nome, participa de eventos específicos e nosso intuito é transformá-la numa escola de primeiro mundo. A minha maior alegria é ver um companheiro aprendendo a tocar. Outra alegria é ver que a comunidade já nos procura para matricular seus filhos. Isso é recompensador.
JI - Então, a música não lhe trouxe frustrações?
JS - Não, só alegrias. A maior delas, o meu reconhecimento como músico, sem falar nos prêmios recebidos. Sou me reconhecem pela humilde. A música para mim é quando eu estou tocando. Para mim todos são iguais, porque têm músicos que lêem mais, outros menos; têm músicos que tocam mais, outros tocam menos. Ninguém pode criticar ou iludir alguém, todos têm suas limitações, principalmente quando o assunto é música.
JI - Já houve alguma música que o José Santana não conseguiu tocar?
JS - Nenhuma. A coisa que mais as pessoas admiram é que eu sempre sei tocar as músicas propostas. Me consideram “um computador”. Basta eu ouvir a música uma vez para em seguida tocá-la. Gravo na memória a melodia da música.
JI - Como o senhor vê a música nos dias atuais?
JS - Atualmente, todos os que se iniciam nos instrumentos musicais já se consideram músicos. Mas o bom músico é aquele que tem dedicação e estuda para aprender música. Em muitos casos não é isso que vejo. Não se vai mais ao quadro aprender a divisar uma música, aprender o ABC musical (o que é música, em quantas partes se divide, o que é melodia, o que é harmonia). A música ficou moderna, porém descartável. Não existe mais a preocupação com a formação do músico. Hoje em dia está tudo tão moderno que a pessoa entra pela manhã numa escola de música e á tarde já está com o instrumento querendo soprar, tocar alguma coisa. Me entristeço em ver que a música está banalizada, comercializada mesmo. Queremos que ainda existam excelentes músicos como o senhor Lázaro e José Bandeira de outrora e mais recentemente Carlos Magno, que foi aluno de nossa escola de música e agora dar aulas para a juventude.
JI - Como o José Santana se vê na história da música?
JS - Todos nós somos personagens da história. Na nossa história da música, me vejo como um de seus personagens mais dedicados, porque a música é dedicação. Para mim a música não é coisa de momento, não representa dinheiro, a música é algo eterno. Eu amo tanto a música que quando morrer vou levá-la comigo.