AO CÉU COM LOUVOR
O único lugar apropriado e preparado para receber Sua Santidade é o céu, por tudo que Karol Józef Wojtyla, o Papa João Paulo II, foi, fez e representou aqui na Terra. Depois do Santo Apóstolo Pedro, o primeiro papa, João Paulo II trilhou para igreja um caminho de luz, semelhante ao que Jesus Cristo ladrilhou para a humanidade. Nunca tantos louvores e reverências foram destinados a um papa. O que vimos foi uma demonstração de fé e respeito, por um homem que sabia, como ninguém, o significado das palavras perdão, paz, amor e caridade.
Trouxe a família e os jovens para o convívio da Santa Sé, pois acreditava que aí está o futuro da igreja. Viajou por mais de 200 países mostrando que as escrituras sagradas guardam sim as soluções para os problemas do mundo. Problemas que ele tanto condenou como a fome, as guerras, os massacres, as violações aos direitos humanos. Foi aonde nenhum Chefe da Igreja Católica ousou ir. Em vários momentos históricos estava João Paulo II diante dos Patriarcas das Igrejas Orientais; estava ele participando de cerimônias ancestrais no coração da África; e diante do Muro das Lamentações, em Israel, fez preces. Em outras ocasiões refez as 14 estações da Via Sacra, em Jerusalém, e esteve refazendo os passos do Apóstolo Paulo.
Nessas viagens não esqueceu do Brasil, o maior país católico do mundo. Aqui esteve por três vezes abençoando o povo desta pátria tão querida por ele. Tanta devoção, lhe rendeu o inesquecível título de “João de Deus”, uma das marcas de seu longo pontificado. Viajando pelos quatro cantos do planeta, cruzando os cinco continentes, João Paulo II enfrentou obstáculos de toda ordem. Foi proibido de pisar em território chinês e a Igreja Ortodoxa Russa o impediu de visitar seu rebanho. Mas o maior obstáculo enfrentado pelo Papa peregrino foi o atentado na Praça de São Pedro, em 1981, que o debilitou seriamente.
De lá para cá, seu porte atlético foi cedendo lugar a um corpo frágil, cansado da batalha, mas não esmoreceu. O mundo ainda precisava muito dele e ele não se negou a ajudar. Colaborou para o fim da Guerra Fria e a queda do Comunismo no Leste Europeu e também na antiga União Soviética. O mundo de paz que João Paulo II desejava, parecia estar sendo construído, se não fosse o absurdo crescimento do terrorismo, estimulado pelo poder imperialista dos Estados Unidos.
Por outro lado, a Igreja Católica, ainda arraigada a uma tradição de séculos e séculos, parecia não saber lidar com sérias questões internas: a pedofilia entre membros da igreja, o homossexualismo entre padres, denúncias de estupro em instituições religiosas, o celibato, a ordenação de mulheres para o sacerdócio e o avanço da Teologia da Libertação. Nos duros discursos, da janela do Palácio Apostólico no Vaticano, João Paulo II se posicionava contra o aborto, os métodos anticoncepcionais, a camisinha, o casamento entre homossexuais, mostrando que a opção a seguir seria confirmar as normas e dogmas, impostos por tantos concílios ao longo do tempo, mesmo que isso significasse a mesmice dos cultos católicos e a perda paulatina de fiéis.
Nas muitas lutas travadas, ficou evidente neste pontificado, que a Igreja Católica nem sempre foi o que imaginávamos. Somente com o Papa João Paulo II, a Santa Sé parece ter ressuscitado para o seu verdadeiro papel. O Papa pediu perdão pelos crimes da Santa Inquisição na Idade Média e pela omissão do Papa Pio XII durante o holocausto e a Segunda Guerra Mundial. João Paulo II sabia que só assim a igreja poderia renascer e se fortalecer, resgatando o respeito e a credibilidade que sempre lhes foram peculiares.
Uma igreja que nunca deixou de estar ao lado do Estado, hoje é o próprio Estado. Como Bispo de Roma ou como Chefe da Igreja Católica ou ainda como Chefe de Estado do Vaticano, a figura e a palavra do Papa se sucedem como sinais da divina providência. Sinais que o último Papa expôs com dignidade e louvor a Deus, apresentando-se como o bom pastor, aquele que faz a escolha, única e inconteste, pelos pobres, pelos oprimidos e desamparados, tal como fez Cristo na pregação do Evangelho.
Muitos outros desafios ficarão para o Papa Bento XVI, escolhido pelo Conclave. A João Paulo II fica a certeza da beatificação e canonização, o merecido reconhecimento ao “homem de paz”, que plantou a semente do ecumenismo e da união entre os povos.