Apenas uma reflexão!
Gonçalo Amador
Lembro-me como se fosse agora. Fui convidado para um almoço na propriedade de um amigo. Foi muito prazeroso: uma comida muito deliciosa, à gosto dos convidados.Pense num ambiente agradável! O almoço aconteceu numa chácara. Uma casa grande e ventilada. Após a degustação sentamos todos na varanda da casa e fomos prosear. Conversa-vai e conversa-vem e num dado momento o proprietário nos falou que um certo dia passaram uns "moleques" pedindo ajuda. Um deles se reportou dizendo que era o aniversário de um amigo que iam comemorar. Numa dessas passagens era hora do jantar e então foram convidados e então o jovem que estava à frente respondeu que não porque estava com outro amigo.
Retrucou o morador: - Chama teu amigo e jante. Após a insistência do dono da casa, os dois se deliciaram com a comida e, quando, de repente um deles olha para a esposa do dono da casa e fala: - "Faremos uma visitinha a qualquer momento nas casas vizinhas. Uma surpresinha. Você entende"!
- Você diz que é nosso amigo e ainda pretende faz essa maldade com nossos vizinhos?
- É o que sei fazer, respondeu o jovem.
- Vou tentar arranjar um emprego para você! - Não pode pensar em viver assim. - Vai trabalhar e mudar de vida por completo.
- "Ah senhora"!!! - Não tenho mais jeito. Não acredito mais nessa história de emprego. Minha vida não tem mais rumo.
Diante de tanto desalento, tanta desesperança cresce a preocupação daquela senhora que volta a afirmar que procuraria emprego para eles. Externou, então, a preocupação com a família daqueles delinqüentes:
- Como é o comportamento de vocês em casa, com a família de vocês?
- Eu só penso na minha mãe que não merece esse sofrimento. Sei que a qualquer dia desse ela vai me encontrar com a boca cheia de formigas.
- Sabe que o que eu queria mesmo é que eu tivesse uma metralhadora nas mãos e que todos os ricos estivessem juntos...
Com a mesma paciência de sua esposa o bom moço retruca: - mais que ódio é esse menino!? - Por que tanta ira?
- Ora se eu não tenho nada e eles têm tudo!
Este é apenas um dos casos verdades que tentei resumir, sem, contudo, nominar os protagonistas. Porém, reflete a todo modo, pelo menos dois mundos opostos. Além disso, coloca de certo modo, feridas abertas da delinqüência e o que a falta de perspectivas gera. O retrato, talvez, de uma realidade crua, doente, angustiante de muitas vidas que se perdem sem que, o Estado, no seu sentido amplo, tenha tido ainda condições de resolver. Este exemplo ilustra, em tese, a situação de milhões de brasileiros que ao desalento de Estado, tornam-se uma ameaça para a sociedade, além de que se tornam infelizes ao ponto de não encontrar na própria vida nenhuma explicação para viver em sociedade.
Trata-se de um caso verdade que presenciei, mas que todos nós podemos observar a todo instante. Basta olharmos a nossa volta: nos semáforos, nas calçadas, no desalento... A violência não surge do nada e sim de uma relação construída. O discurso da igualdade precisa sair das imagens eletrônicas e tornar-se real. Quem sabe assim teremos em breve uma realidade menos perversa.