JI. Dr. Marlon. Na eleição passada o TSE foi bastante rigoroso. Este ano o rigor será o mesmo?
Dr. Marlon. O que aconteceu na eleição passada tivemos um prenuncio do que está se anunciando neste ano. Por exemplo: antigamente os candidatos que tinham contas públicas rejeitadas entravam com recurso e já suspendiam a inelegibilidade hoje isso já não é assim tão simples. Eles precisam pelo menos de uma liminar da justiça. Isso impediu diversas candidaturas. Este ano estima-se que pelo menos 2.000 pessoas ficarão inelegíveis no maranhão por conta de prestação de contas rejeitadas. Outro aspecto que também tem aumentado o rigor é quanto à questão da compra de votos, uma prática considerada comum, aceita socialmente, mas que cada vez mais a justiça eleitoral tem combatido com extremo rigor. E isso é necessário porque visa justamente impedir que as eleições sejam transformadas em mercado, num negócio em que ganha quem tem mais dinheiro para comprar votos. Eu diria que nessas duas áreas em que a justiça eleitoral tem atuado com bastante rigor e eficácia.
JI: Na eleição deste ano o combate à compra de votos terá atenção especial por parte da justiça eleitoral? Essa prática será combatida com o mesmo rigor observado na eleição anterior?
Dr. Marlon. Nós vamos adotar várias ações no âmbito da zona eleitoral para impedir a compra de votos. Nós sabemos que impedir totalmente, de uma hora para a outra, é difícil. Mas vamos nos empenhar em fazer um trabalho educacional. Nós queremos mostrar para a população quais são as conseqüências da compra de votos. Não se trata de colocar a polícia nas ruas. Nós não vamos fazer isso. Nós vamos combater a compra de votos com a cultura porque nós entendemos que a compra de votos é um produto da ignorância, do pouco desenvolvimento cultural. E o antídoto para isso, o remédio para isso é cultura. Por isso nós vamos visitar as igrejas, os povoados, as associações, para conversar com as comunidades. E outra forma de trabalho com a comunidade é a criação do Comitê 9840 - Comitê Popular de Combate à Corrupção Eleitoral. Esse comitê vai ter o encargo de representar a sociedade itapecuruense fazendo esse trabalho educativo. Então a fiscalização não vai ficar a cargo de um promotor ou de um juiz eleitoral. Vai ficar a cargo da própria sociedade que vai ser organizada nos bairros, nos povoados e aqui na sede do município para fazer esse trabalho de educação e de fiscalização popular.
JI: O funcionamento desses comitês populares tem se mostrado eficazes?
Dr. Marlon. Na eleição anterior eu presenciei a ação desses comitês e os relatos que nós temos são impressionantes porque os políticos simplesmente ficam fragilizados. Não os bons políticos porque estes só tem o que comemorar com esse tipo de ação. Mas aqueles corruptos que pretendiam comprar votos eles ficam fragilizados porque não tem defesa, eles não sabem de onde poderá partir a denúncia porque não se trata de um só juiz fiscalizando mas é a própria comunidade. Portanto eles não sabem quem pode estar envolvidos com esses comitês e não sabem quem poderá levar a informação ao comitê. Ele pode, por exemplo, ir a uma casa tentar comprar voto e nessa própria casa ter alguém que pode denunciá-lo. Nós tivemos um caso, em Barão de Grajaú, em que um candidato a vereador saiu de casa em casa distribuindo R$ 50,00 (cinqüenta reais). Logo que ele saiu a população fez uma passeata e foi até a promotoria e junto com o Comitê 9840 foram entregar o dinheiro para a Justiça Eleitoral. O dinheiro ficou anexado ao processo como prova e ele perdeu o mandato de vereador. Esse é um bom exemplo de como a própria sociedade pode se mobilizar. E ela se mobiliza. Só falta uma palavra de estímulo. A população não é boba. Ela sabe muito bem por que uma pessoa compra votos. Quem compra votos é porque quer praticar corrupção depois.
JI: De um modo geral quais são as orientações do TSE para as eleições deste ano?
Dr. Marlon. As regras são praticamente as mesmas das eleições passadas.. Os "showumícios", por exemplo, aqueles shows com bandas famosas contratadas a peso de ouro não vão acontecer. Por que? Porque é uma maneira de desequilibrar a disputa. Uma pessoa pobre não é capaz de competir com quem tem condições de trazer uma grande banda. Então isso iguala os candidatos. Como vamos saber se os nossos políticos são carismáticos? Capazes de reunir a população apenas para ouvi-los? Como acontecia antigamente. Nós tivemos grandes líderes carismáticos como Juscelino Kubstcheck, Getúlio Vargas, Tancredo Neves... pessoas que faziam campanha conversando e convencendo as pessoas. O Barack Obama é outro exemplo de como o político não é para ficar dando benesses para. Então toda forma de expressão artística é proibida. Teatro, poesia, música em som ambiente, apresentação de show gravado em telão, e até mesmo o próprio candidato, se ele for um artista, também está proibido de cantar no próprio comício. Distribuição de brindes também é proibida. Qualquer que seja o tipo de brinde. O candidato que infringir essas normas pode até perder o direito de concorrer. As normas estão progredindo e a postura da justiça eleitoral está progredindo não para prejudicar os políticos. Pelo contrário. Os políticos bem intencionados ficam felizes com esse tipo de coisa. Por que? Porque eles não correm o risco de perder as eleições para aqueles que praticam abuso de poder econômico. Agora quem tem que temes essas providências são aqueles que estavam pretendendo "comprar" a eleição.
JI: Qual a sua orientação, o seu recado para os candidatos?
Dr. Marlon. Façam a campanha como determina a lei. Distribuam seus panfletos, façam seus comícios, visitem os leitores. A campanha é um espaço de conquistas, de busca de adesões pela palavra, pelo programa partidário, pelo programa de campanha... e nisso vocês podem contar com a justiça eleitoral como uma forte aliada porque nós estamos aqui para garantir o direito de todos fazerem propaganda e contem com a justiça eleitoral e tragam ao nosso conhecimento informações de eventuais adversários que estejam querendo jogar sujo e derrubar a candidatura de vocês por vias ilícitas.
JI: E para o eleitor? Qual é a sua mensagem?
Dr. Marlon. Meu recado para o eleitor é que ele reflita sobre o porque da compra de votos. O que ele ganhou com a compra de votos nos últimos anos? A compra de votos mudou a sua vida? E que o eleitor reflita que a vida de quem comprou o voto dele o quanto mudou. Então pense. Quem ganha com a compra de votos? Quem compra ou quem vende o voto? Não é esperteza nenhuma receber coisas de políticos. Esperteza é mandar na política e o eleitor é o dono da política. É ele quem escolhe quem coloca e quem tira. Então que o eleitor faça valer sua palavra. Não em troca de um favor, de uma cesta básica ou de um de um par de chinelos. Mas em troca de uma postura digna por parte dos eleitos.