Em uma de suas saborosas e nostálgicas crônicas, publicada em dezembro de 1962, o jornalista Zuzu Nahuz afirmava: “Jamais em minha vida poderei esquecer a festa de São Benedito. Como me recordo, com imensas saudades, daqueles tempos venturosos que os tempos não trazem mais”.
Na verdade, quem viveu aquela fase da vida “que os tempos não trazem mais”, confirmará e dará razão ao inesquecível jornalista itapecuruense, que, enquanto viveu não conseguiu apagar da memória as fantásticas lembranças da terra em que nasceu, que fluíam em cascata ao evocar a festa de São Benedito, considerada a mais importante do calendário religioso de Itapecuru, pelo fato de ser a mais animada, a de maior participação popular e organizada com inexcedível esmero.
Para começo de conversa, devo dizer que a festa de São Benedito, ao contrário das realizadas em outras cidades do Maranhão, não se comemorava no mês de agosto. Em Itapecuru, a celebração ocorria num período não tão comum à prática de eventos religiosos e paroquiais, ou seja, de 28 de dezembro a 1º de janeiro.
A propósito, só em um curto período a festa deixou de se realizar como mandava o costume e a tradição. Em 1960, o então arcebispo do Maranhão, dom José de Medeiros Delgado, decidiu alterar a data do evento, transferindo-a para os meados de dezembro, antes das festividades natalinas, sob o pretexto de que a programação em voga não se adequava ao cânone da igreja. A decisão do prelado foi uma bomba na cidade. Nem os fiéis, tão pouco o encarregado do festejo, meu pai, o empresário Abdala Buzar, aceitaram-na resignadamente. Em que pese os protestos de todos, dom Delgado não recuou e a nova data só não se eternizou por causa da remoção do bispo para a arquidiocese de Fortaleza, em setembro de 1963. Papai, em conluio com o vigário da paróquia, cônego José Albino Campos, e sob as bênçãos veladas do novo bispo, dom João Mota e Albuquerque, fez o cronograma primitivo se restabelecer, para alegria e felicidade dos itapecuruenses e dos habitantes das cidades vizinhas.
DA PROGRAMAÇÃO E DOS PREPARATIVOS - Das festas religiosas de minha terra, sem dúvida alguma, a de São Benedito era a que mais de perto me tocava. Sobre ela falo com autoridade e conhecimento, pois desde que me entendo como gente, infiltrou-se na minha intimidade. Era no interior da minha casa que tudo ocorria em matéria de preparação e de organização da festa, para que ela fluísse sem problemas e nada faltasse para impor-se como sucesso de público.
As ações voltadas para esse objetivo, iniciavam-se no mês de dezembro, quando papai se reunia, dia e noite, com a sua turma de choque - Antônio Lima, Coroboró, Pedro Tiago, Jeth Lago, José Domingos, Celé, João Cruzeiro e outros, para o acerto da programação e das providências para viabilizá-lo como evento religioso de monta. Para isso, no largo da matriz, a ser transformado em gigantesco arraial, não poderia deixar de contar com pés de patís, também chamados de ariris, de bandeirinhas de papel de seda e de tecido, das mais variadas cores, e de marcante iluminação.
Quando a cidade não era provida de motor de eletricidade, o arraial ficava sujeita à luz de petromax, um tipo de lampião, que funcionava com querosene e alcool. Anos depois, deu-se a substituição do petromax por lâmpadas elétricas, alimentadas por um gerador da paróquia de Coroatá, que papai contratava, juntamente com um serviço de alto-falante, denominado “Voz Pindorama”, a grande novidade da época em matéria de comunicação social. Posteriormente, ele tratou de adquirir um gerador e um serviço de alto-falante, que colocou à disposição da paróquia de Nossa Senhora das Dores. Era a “Voz Paroquial São Benedito”, pilotada pelo locutor Edmar Bezerra.
Em seqüência, vinham as providências para a construção das barracas de palha ou de lona, onde ficariam os bares, para a venda de comidas e bebidas alcoólicas ou não, os camelôs e os vendedores de bugigangas. À falta de energia elétrica, as barracas de Januário Siqueira e de Zé Cuduca acondicionavam as bebidas em tonéis, dentro dos quais barras de gelo e camadas de serragem se misturavam para deixá-las “estupidamente geladas”. Os camelôs, então chamados de marreteiros, e os vendedores de bugigangas, em grande número, provinham de todos os lugares e traziam mercadorias para comercializarem a preços accessíveis aos romeiros.
Também não podiam ser esquecidos os locais destinados às bandas de música, ao leilão, às doceiras e às diversões. Para as bandas de músicas, armavam-se dois coretos. Um para a banda da cidade e outro para a da cidade visitante, que vinha de Anajatuba ou de Cantanhede. Os coretos ficavam num plano elevado, a fim de que o som produzido pelas orquestras, especialmente a da cidade, sob a batuta dos maestros Joaquim Araújo ou Carlos Bezerra, pudesse ser ouvido à longa distância.
Para o leilão, nada mais adequado do que colocá-lo num lugar em que o leiloeiro e os arrematadores das jóias ficassem à vontade. O leiloeiro oficial era papai, que sabia com arte e humor, estimular a concorrência entre os arrematadores, com vistas a aumentar a receita do cofre da igreja. Os produtos arrematados emanavam da contribuição e da oferta dos romeiros e dos fiéis, que os doavam ao santo. Exemplares de bovinos, muares, caprinos, suínos e aves de todos os tipos, além de mercadorias e artigos de consumo doméstico, em grande quantidade, todas as noites iam ao leilão, que começava antes da reza e demandava horas para acabar. Na véspera da festa, papai, à frente da banda de música e com auxílio de moças e rapazes, ocupava as ruas da cidade para o recolhimento das jóias.
As bancadas das doceiras, que marcavam presença em todos os eventos religiosos, Maroca, Ana Júlia, Braulina, Leonor, Tina e tantas outras, eram colocadas em posição de fácil acesso aos consumidores, para se deliciarem com os pudins, taboquinhas, bolos de tapioca e de trigo e outras guloseimas. Destaque também para a bancada do velho Martiniano Araújo, cuja especialidade era a saborosa gengibirra.
Quanto aos equipamentos de diversões, espalhavam-se nas laterais da igreja. Entre os mais procurados pelas crianças, os carrosséis, especialmente o de Clóves Mendes, ele, que se dividia entre os deveres da sacristia e o funcionamento de seu pequeno carrossel, totalmente fabricado na cidade.
AS CELEBRAÇÕES RELIGIOSAS E AS PROFANAS - Merecia cuidadosa atenção de Abdala Buzar e de sua tropa de choque, os atos concernentes às celebrações religiosas-missas, ladainhas, rezas, procissão e batizados. As profanas também não eram deixadas à margem, tanto que os bailes e as manifestações populares faziam parte da programação, que, com relativa antecedência, chegava ao conhecimento da população através de cartas-convite.
De acordo com a programação, a cidade era acordada às 5 horas da madrugada de 28 de dezembro por meio de retumbante alvorada a cargo da banda de música, que desfilava pelas principais ruas e executava um selecionado repertório. Simultaneamente, pipocavam potentes foguetes e rojões, preparados e lançados aos céus pelas mãos hábeis de Coroboró, bem como repicavam os sinos da matriz, manipulados por Clóves Cordeiro Mendes, Nonato Araújo e Dazi Costa, que se alternavam naquela tarefa obrigatória e tradicional.
Com referência às atividades litúrgicas, estas contavam com a participação ativa do vigário e das corporações religiosas. O cônego José Albino Campos convidava os padres das paróquias vizinhas para ajudá-lo na prestação dos ofícios cristãos, estes, numerosos e cansativos. Enquanto as rezas e as ladainhas se realizavam na parte noturna, as missas aconteciam no turno matutino. A principal, a de 1º de janeiro, exigia celebração especial. Começava por volta das 9 horas e terminava quase ao meio-dia, ao longo da qual se ouviam hinos e cânticos religiosos, cantados em português ou em latim, por um coro de homens e mulheres da comunidade, com a presença da banda de música da cidade. As pessoas, independente de sexo, idade, cor e posição social, ocupavam literalmente a igreja e apresentavam-se de roupa nova. Depois da missa, só permaneciam no interior da igreja as pessoas envolvidas com as cerimônias de casamento e batizado. A grande maioria dirigia-se para o arraial, onde as opções de passatempo e diversão eram múltiplas, variadas e para qualquer gosto: bater papo, namorar, ouvir a banda de música tocar, mandar mensagens musicais pelo serviço de alto-falante, beber refrigerante e cerveja, saborear doces, comprar bugigangas, brincar nos carrosséis e rodas gigantes, tirar fotografias nos lambe-lambes e tentar a sorte nas roletas e em jogos semelhantes.
O final da tarde era reservado para a procissão. Às 17 horas, os fiéis e romeiros saiam da igreja junto com o andor de São Benedito, devidamente ornamentado por flores naturais e artificiais e fitas multicoloridas. Em seguida, vinham os andores de Nossa Senhora das Dores e do santo visitante, geralmente, São Raimundo dos Mulundus. A procissão percorria as principais ruas e ao longo do percurso rezavam-se terços e entoavam-se cânticos sagrados, dentre os quais o “Queremos Deus”. A presença da banda musical era obrigatória. Os pagadores de promessas constituíam um espetáculo à parte. Alguns, descalços com velas nas mãos, outros com objetos nas cabeças (pedras e bilhas com água), sem olvidar os que carregavam as réplicas do corpo humano feitas de cera. Quando a procissão, com Luiz Ferraz ou o popular Broca à frente, retornava à igreja, após cumprir o trajeto programado, um ensurdecedor foguetório explodia no ar e os sinos não paravam de repicar. A manifestação de júbilo e de fé cristã só estancava quando o vigário, no frontispício do templo, iniciava a pregação em louvor a São Benedito.
A parte profana do festejo tinha sua culminância no curso da última noite com a realização de bailes e manifestações populares. A cidade, ainda destituída de clubes recreativos e sob o efeito de detestável preconceito racial, contribuía para determinar o confinamento dos segmentos sociais. Essa odienta discriminação fazia com que os socialmente mais dotados e os considerados brancos se divertissem em ambientes diferentes dos freqüentados pelos menos afortunados, negros e mulatos. Enquanto os bailes de primeira e de segunda classe eram promovidos em casas particulares, os das meretrizes se realizavam nas casas dedicadas à prostituição, destacando-se a pensão da Polônia, uma negra gorda e simpática, situada em uma rua de complicado acesso, porque um forte areal a dominava de ponta a ponta.
Para os que não gostavam de baile e festas dançantes, as alternativas eram as manifestações populares e folclóricas, dando-se preferência ao tambor de crioula, em que os afro-descendentes pontificavam com cantigas e danças provindas dos antepassados, representadas pelas comunidades dos povoados de Moreira, Santa Rosa, Outeiro e Felipa. A preocupação de papai era fazer o tambor raiar o dia, tanto que não deixava faltar o combustível necessário ao folguedo: cachaça farta e de graça.
A cena final da festa dava-se quando os ponteiros dos relógios cruzavam a meia-noite. Para dar um toque de nostalgia, papai levava a banda de música para dentro da igreja e ali executava a valsa da despedida. Tinha gente que não segurava a emoção. Em meio àquela incontida tristeza, restava o consolo de esperar 365 dias. Aí, sim, tudo voltaria a acontecer.
A FESTA DA DESPEDIDA - O último ano que Abdala Buzar organizou a festa de São Benedito, ao qual devotava uma veneração ilimitada, deu-se em 1974, assim mesmo sem o vigor da saúde, já que a enfermidade que o atacara, extorquia dele as forças e o empenho do passado, quando se entregava de corpo e alma para fazer que o evento suplantasse os anteriores.
Mesmo fragilizado fisicamente, não mediu sacrifícios e deu tudo de si para a festa do “Nego Velho”, como ele o chamava carinhosamente, não mostrar sinais de decadência.
Dom José de Medeiros Delgado, seu amigo fraternal, veio especialmente de Fortaleza, para celebrar a missa no dia 1º de janeiro de 1975. Na homilia, o bispo, que sabia do precário estado de saúde de papai, falou sobre o que ele significava para o Itapecuru e o que a festa representava para ele. Ao louvar-lhe as virtudes e realçar as ações e iniciativas promovidas por aquela bondosa figura humana, ao longo da existência, em proveito da população e da terra que tanto amou, dom Delgado concitou os que se encontravam na igreja a rezar e pedir a Deus pela recuperação do amigo querido.
A 27 de março de 1975, papai, depois de tanto sofrimento e dor, ele, que não merecia passar por tantos padecimentos, deixou-nos definitivamente. Como diria o poeta Carlos Drumond de Andrade, não morreu, ficou encantado.
Com a sua morte, a festa de São Benedito começou a percorrer os caminhos das dificuldades e das incertezas. Não demorou muito tempo para alcançar a previsível decadência, cujo desfecho deu-se com o fatal desaparecimento. Assim como as festas do Divino Espírito Santo e da Santa Cruz, que soçobraram com o falecimento de seus abnegados promotores, respectivamente, Raimundo Veras e Francisco Garcia Nogueira, a de São Benedito, também, não escapou da determinação que lhe impôs o destino: sucumbiu diante da ausência definitiva de Abdala Buzar Netto, seu incansável promotor e benemérito.