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Publicada em: 25 de outubro de 2006
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Por: Benedito Buzar

Tenho a impressão de ser a Festa de Santa Cruz o evento religioso mais antigo e tradicional da minha terra. Remonto às origens históricas de Itapecuru e respaldado em César Augusto Marques, autor do Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão, para revelar que, na Praça da Cruz, em 20 de outubro de 1818, o procurador Francisco de Paula Pereira Duarte, na presença da nobreza, do clero e do povo, leu em voz alta a Provisão Régia de 27 de novembro de 1817, que criava a vila de Itapecuru.

Naquela época, pelo que registra os anais da cidade, a Praça da Cruz se localizava no espaço físico que formou o núcleo primitivo da vila e posteriormente da cidade, área onde se acha hoje o mercado. Ali, em 1820, construiu-se a capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em que se realizavam os atos religiosos, inclusive os dedicados à Santa Cruz.

Com o processo evolutivo da vila, anos mais tarde, no vicariato do padre Francisco José Cabral( 1862 a 1870)construiu-se nova igreja, sede da matriz em homenagem a Nossa Senhora das Dores, padroeira da Freguesia do Itapecuru, criada pela Provisão Régia de 1801.

Com a construção da nova igreja, tudo leva a crer que se construiu outra Praça ou Largo da Cruz, no local onde se acha até os dias correntes. Era uma área descampada, sem a presença de igreja ou de capela. À falta desses templos, sem que se saiba precisar o autor da obra e a data da construção, levantou-se um altar-mor, em alvenaria e de razoável tamanho, no centro do qual pontificava uma vistosa cruz de madeira, onde passaram a ser celebradas as missas, cantadas as ladainhas, rezadas as orações e pagas as promessas.

Anos depois, a Praça da Cruz, em função de intervenções promovidas pela prefeitura do município, que resolveu modernizá-la, ali se introduziram bancos, canteiros e postes de iluminação elétrica. Remodelada, ao longo do tempo, recebeu outras denominações, algumas votadas pela Câmara Municipal, como Praça João Lisboa ou Praça Saturnino Bello, mas não chegaram a ser consagradas pelo povo, que sempre preferiu chamá-la pelo nome original.

Houve um prefeito, que, na avidez de dar à praça um retoque de modernidade, decidiu substituir a cruz de madeira por uma de concreto. Resultado: a população não aceitou a reforma e outro prefeito foi obrigado a substituir a cruz de concreto pela original.

Cenário de festa

Há uma controvérsia com relação à promoção da Festa da Cruz. O jornalista Zuzu Nahuz, nascido em Itapecuru, onde viveu a infância, em crônica publicada no Correio do Nordeste, afirmava que o mês de sua comemoração era agosto, informação que vai de encontro com os meus tempos de infância, quando a cidade se preparava para festejá-la na segunda metade do mês de outubro.

Três famílias, no curso dos anos, se encarregaram de promover a Festa da Cruz: Sitaro, Bezerra e Nogueira. A elas cabia a tarefa anual de organizá-la e de dar-lhe o tratamento que rezava a tradição, que se manifestava na realização das celebrações religiosas e de atividades profanas, mas consideradas imprescindíveis para tornar o festejo animado e descontraído.

No espaço que circundava o altar-mor, ficava literalmente ornamentado com bandeirolas coloridas e pés de ariris, pois ali se montavam o coreto, o leilão, as barracas e as bancadas.

No coreto, ficava a banda musical, que todas as noites se fazia presente, não apenas para animar o arraial, mas também acompanhar os ofícios religiosos, destacando-se as missas e as ladainhas, ao final das quais os fiéis cantavam em uníssono o hino da Santa Cruz, dotado de um estribilho que até hoje continua retido na minha memória: “Triunfar, Senhor Jesus. Quem veio reinar pelas nossas almas. Triunfar, Senhor Jesus. Que veio reinar pela vossa cruz”. No cercado destinado ao leilão, os dotados de maior poder aquisitivo, arrematavam as jóias, cujas receitas serviam para arcar as despesas efetuadas pelos organizadores.

As barracas, de vários tamanhos, feitas de palhas de pindoba, destinavam-se à venda de bebidas, alcoólicas ou não, comidas, tira-gostos e doces, estes preparados pelas doceiras da cidade, as veteranas Leonor, Frozina, Maroca, Braulina, Ana Júlia, Mundica Sampaio, Dona Tina e tantas outras, todas dotadas de invejáveis virtudes culinárias, sem esquecer as brincadeiras de sorte, os jogos de azar e os carrosséis.

A Festa da Cruz, diferentemente das outras festas religiosas de Itapecuru, tinha uma duração maior. Enquanto a de Nossa Senhora das Dores e a de São Benedito limitava-se a cinco dias, a da Cruz chegava aos nove dias.

Com o passar dos anos, a festa começou a viver momentos de altos e baixos. O desaparecimento de Francisco Garcia Nogueira, respeitado funcionário público federal, em torno do qual o evento religioso girava, contribuiu sobremodo para o festejo entrar em declínio, a despeito do esforço admirável de suas filhas, Conchita, Maria Hilda, Socorro e Zezé, que até os dias de hoje se desdobram para não deixar que desapareça de vez do calendário religioso da cidade.

O ponto culminante da festa era o domingo. No alvorecer do dia, a população despertava pelo pipocar dos foguetes e pelo badalar dos sinos. Por volta das 9:00 horas, o vigário iniciava a cerimônia da missa, assistida fervorosamente pelos católicos e romeiros vindos dos povoados e das cidades vizinhas. No final da tarde, a tradicional procissão viajava pelas principais ruas da cidade. Ao longo do percurso, os fiéis rezavam e cantavam hinos de cunho religioso, com o auxílio da banda musical. À noite, encerrava-se a novena, para tristeza dos católicos itapecuruenses, que deixavam o Largo ou a Praça da Cruz na expectativa da realização da próxima festa - a de São Benedito, prevista para o final de dezembro, mas que tinha o seu ápice no dia 1º de janeiro.


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Inclusão: 25/10/2006