LENHO CRUENTO
Oh crudelíssima cruz do Gólgota cruel
Vejo-te agora através do pensamento
E Cristo agonizante a mirar o azul do céu
pedindo ao pai que abrevie e sofrimento
e que logo se cumpra sua trágica missão.
Oh lenho cruento se pudesses imaginar
que morre em teus braços o autor da criação
incendear-te-ia desde quando a desabrochar
iniciaste tua vida de árvore predestinada
a ser o cadafalso do salvador da humanidade
Oh lenho cruento se pudesses ver Cristo exangue
com o corpo aberto pela lança do soldado
tu dirias ao pai eterno eli eli, lama sabactâni?
e amaldiçoarias a árvore da qual foste retirado.
O LOUCO
Os olhos descortinados em visões
na boca imunda a língua dos deuses
desferindo contra a aurora imprecações
soerguendo do delírio sua Elêusis.
Luna no altar de seu cosmo interior
Hermes nos pés ligeiros que correm
À procura do arco-íris que além da cor
Faz-se Oxumaré nos dilúvios que morrem
E a marca da promessa vai pouco a pouco
Serpenteando na órbita do olhar louco
Apóstata, herege, bispo negro sem capela
Sacerdote dos mistérios da dor humana
Que do fim dos tempos fez-se sentinela
Tendo à mão uma retorcida trombeta insana.
LEVANTA-TE
Levanta-te do chão e toma o teu laurel.
Tece da dor a urdidura da adaga
e tangendo tua lira tal qual menestrel
eleva teu canto à noite enluarada.
Levanta-te do charco e toma tua rosa
mística no jardim do êxtase interior
qual Tereza D’Ávila gozando melosa
prece, ante seu crucificado senhor.
Levanta-te na noite escura de tua alma
qual São João da Cruz na fria masmorra
em meio à tormenta cultiva a calma
quando pesar-te da dor a vil manzorra.
Levanta-te e subjuga a áspide e o leão
e derrama um canto vitorioso em libação.
IGREJA DA SÉ
Tocado pela inspiração de divina natureza
o artífice talhou a ourivesaria de teu presbitério
deslumbrou-me a imponência de tamanha beleza
naveguei silencioso na mística desse mistério!
Tabernáculo centenário, histórico monumento.
Moradia de arte sacra, abóbada e altares.
Comove teu Cristo inerte no lenho cruento
e a mater dolorosa sangrando infelizes mares.
Sangrando sofrido pranto...Graciosa arquitetura
fazendo-nos porfiar pelas eterníssimas catedrais
onde o cinzel do artista foi beber formosura
traduzida em cada traço dessas formas angelicais.
Quem permanece insensível diante da piedade e fé
que habita o cândido olhar da virgem da Igreja da Sé?
São Luís 16/09/2010 21:00h