4 Sonetos de Theotonio Fonseca

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Data de Publicação: 9 de janeiro de 2012 às 09:50
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LENHO CRUENTO

Oh crudelíssima cruz do Gólgota cruel
Vejo-te agora através do pensamento
E Cristo agonizante a mirar o azul do céu
pedindo ao pai que abrevie e sofrimento

e que logo se cumpra sua trágica missão.
Oh lenho cruento se pudesses imaginar
que morre em teus braços o autor da criação
incendear-te-ia desde quando a desabrochar

iniciaste tua vida de árvore predestinada
a ser o cadafalso do salvador da humanidade
Oh lenho cruento se pudesses ver Cristo exangue

com o corpo aberto pela lança do soldado
tu dirias ao pai eterno eli eli, lama sabactâni?
e amaldiçoarias a árvore da qual foste retirado.

O LOUCO

Os olhos descortinados em visões
na boca imunda a língua dos deuses
desferindo contra a aurora imprecações
soerguendo do delírio sua Elêusis.

Luna no altar de seu cosmo interior
Hermes nos pés ligeiros que correm
À procura do arco-íris que além da cor
Faz-se Oxumaré nos dilúvios que morrem

E a marca da promessa vai pouco a pouco
Serpenteando na órbita do olhar louco
Apóstata, herege, bispo negro sem capela

Sacerdote dos mistérios da dor humana
Que do fim dos tempos fez-se sentinela
Tendo à mão uma retorcida trombeta insana.

LEVANTA-TE

Levanta-te do chão e toma o teu laurel.
Tece da dor a urdidura da adaga
e tangendo tua lira tal qual menestrel
eleva teu canto à noite enluarada.

Levanta-te do charco e toma tua rosa
mística no jardim do êxtase interior
qual Tereza D’Ávila gozando melosa
prece, ante seu crucificado senhor.

Levanta-te na noite escura de tua alma
qual São João da Cruz na fria masmorra
em meio à tormenta cultiva a calma

quando pesar-te da dor a vil manzorra.
Levanta-te e subjuga a áspide e o leão
e derrama um canto vitorioso em libação.

IGREJA DA SÉ

Tocado pela inspiração de divina natureza
o artífice talhou a ourivesaria de teu presbitério
deslumbrou-me a imponência de tamanha beleza
naveguei silencioso na mística desse mistério!

Tabernáculo centenário, histórico monumento.
Moradia de arte sacra, abóbada e altares.
Comove teu Cristo inerte no lenho cruento
e a mater dolorosa sangrando infelizes mares.

Sangrando sofrido pranto...Graciosa arquitetura
fazendo-nos porfiar pelas eterníssimas catedrais
onde o cinzel do artista foi beber formosura

traduzida em cada traço dessas formas angelicais.
Quem permanece insensível diante da piedade e fé
que habita o cândido olhar da virgem da Igreja da Sé?

São Luís 16/09/2010 21:00h

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